A polêmica do ano no Cinema: Warner lançará seus maiores títulos na internet

Warner

A polêmica envolvendo a Warner e a HBO Max nem deveria existir. Isso porque a decisão do estúdio em lançar todas as suas produções nos cinema na plataforma de streaming simultaneamente, é um dos maiores desrespeitos da indústria para com a arte e seus artistas. Toda a briga poderia ser resumida de forma simples: mantendo os lançamentos prioritariamente nos cinemas, mas diminuindo a janela entre as salas de exibição e as mídias físicas e digitais.

Mas o que é a janela? É o período em que um filme fica nos cinemas antes de ser lançado em DVD/Blu-Ray/VOD/streaming. Por muitos anos, essa janela foi de três meses aproximadamente. Um filme chegaria aos cinemas em janeiro, por exemplo, ficaria um tempo em cartaz, tendo lucros. Depois de algumas semanas, sairia das salas e ficaria numa espécie de stand by. Pouco tempo depois o filme chegava às prateleiras das videolocadoras e/ou plataformas de streaming.

A importância da janela

Existem várias janelas na indústria. Há a janela/espaço entre a exibição no Cinema e o lançamento em mídias físicas ou digitais; há o espaço entre as mídias e a exibição na TV à cabo; depois, estre esta e a TV aberta. Essas janelas não são atitudes randômicas, sem sentido. São regras que estimulam o consumo em determinadas circunstâncias a ajudam o lucro em determinados setores. Extinguir este período é extinguir uma das formas de exibição/distribuição.

Pense por um instante. Você é um fã ardoroso do Cinema e jamais deixará de assistir os filmes na tela grande e ao lado de vários desconhecidos. Beleza. Ótimo. Mas imagine o cidadão médio, o trabalhador que conta seus reais dia após dia. Entre o Cinema (que une custos de ingresso, estacionamento ou transporte, comida, etc.) e o conforto e gratuidade de casa, a escolha é simples. Trata-se de uma batalha injusta onde o Cinema facilmente fica para trás.

Ser contra a decisão não é ser contra o streaming

Entenda, entretanto, que não somos contra o streaming. Pelo contrário: assim como George Clooney frisou em artigo recente, as plataformas de streaming chegaram para democratizar a distribuição de arte e para gerar milhares de novos empregos. Cidades minúsculas, interioranas, que jamais viram a tela de um Cinema, podem, pela primeira vez, receber os maiores lançamentos dentro de casa. Desta forma, defendemos irrevogavelmente as plataformas como Netflix, Amazon, HBO Go, Globoplay, entre outras.

Dito isso, é preciso que os lançamentos cheguem primeiro aos Cinemas e depois às plataformas. Façamos um cálculo simples: suponhamos que a assinatura de uma plataforma custe, aproximadamente, 30 reais. Com este valor, que é mensal, você assiste 4 lançamentos (o número é maior, mas imaginemos um por semana). Desta forma, você estaria pagando R$7,50 por cada filme. Junte no contexto o fato de que toda a sua família assista ao mesmo filme. Três pessoas assistindo ao mesmo título, por este valor, é igual a R$2,50 por pessoa. Tudo isso é apenas um exemplo, para que a comparação fique clara.

Agora, imagine que as mesmas três pessoas se dirijam ao Cinema para assistir ao mesmo lançamento. O valor de um ingresso já é quase o valor da assinatura mensal da plataforma. Com isso, digamos que o ingresso seja R$15 (e estamos sendo generosos). Três pessoas somam R$45, valor consideravelmente maior que os R$2,50 anteriores. Você poderá dizer que o Cinema é elitista, e que poucos são os que conseguem pagar e ir frequentemente às salas de exibição.

E você está coberto de razão. 

O cinema é elitista, o cinema é inalcançável  para milhares de pessoas ao redor do mundo. E é justamente pelo valor do ingresso que o Cinema precisa ter prioridade nos lançamentos. Nesta perspectiva, donos de salas, estúdios, produtores e artistas precisam do valor deste ingresso, que é mais elevado, para continuar produzindo e trabalhando.

A Warner jamais seguirá produzindo e lançando filmes como Duna, Harry Potter ou Senhor dos Anéis se seguir lançando suas produções direto no streaming. Isso porque todas estas produções são gigantes e caríssimas, precisando de milhões e milhões de dólares para saírem do papel. Estes milhões vêm, dentre inúmeras coisas, do ingresso mais caro que você paga na bilheteria.

Portanto, não sejamos hipócritas. Embora elitista, o Cinema precisa seguir existindo com prioridade nos lançamentos para que estes mesmos lançamentos sigam existindo.

Mas e como as pessoas que não têm aporte financeiro ou Cinemas próximos poderão assistir aos filmes? 

Nas mesmas plataformas de straming e com rapidez. Poucas semanas depois do lançamentos nos Cinemas, os títulos já podem chegar aos catálogos online. 

Mas e a pandemia? Como ir ao Cinema no meio de uma crise sanitária?

É óbvio que você não deve ir ao Cinema durante a pandemia. Além disso, defendemos o lançamento em plataformas online durante este período. O grande problema é que a Warner tomou a decisão de lançar seus produtos simultaneamente na HBO Max com ou sem pandemia. Ou seja, mesmo com vacina e eventual erradicação da doença, a lógica de lançamento seguiria a mesma.

Christopher Nolan e Denis Villeneuve, dois dos maiores cineastas do estúdio, criticaram veementemente a decisão do mega estúdio. O sentimento de abandono era latente. Todos foram pegos de surpresa e as desculpas do estúdio vieram recentemente. Segundo a diretoria da Warner, as conversas com os artistas não aconteceram pois a empresa temia um vazamento, que seria ainda mais problemática.

Dor de cabeça

A decisão da Warner rende dores de cabeça inimagináveis: Duna, por exemplo, não é produzido apenas pela Warner. Assim, os demais produtores se sentem lesados, já que não tiveram voz na decisão de lançar seu produto na internet. Pratas da casa como James Wan e Jason Blum, ases do horror moderno, possuem acordos muito específicos com o estúdio. Wan, por exemplo, assinou para receber determinada porcentagem dos valores angariados nas salas de exibição. Com poucas ou nenhuma sala, como pagar um artista?

Imagine que você é sócio de um amigo e vocês vendem lanches na rua. Visualize o seguinte: seu amigo decide doar os lanches, mas não lhe comunica ou negocia a decisão. O seu lucro, que viria dos lanches, cai por terra, já que outra pessoa decidiu por você.

Estratégia, pra que te quero…

Em comunicado, a Warner comunica que o modelo híbrido foi criado como uma resposta estratégica à pandemia global. O plano é o seguinte: manter os filmes na HBO Max dos EUA durante um mês. Depois, os filmes deixam a plataforma e seguem nos Cinemas e em territórios internacionais. Desta forma, todas as janelas de distribuição seriam aplicáveis ao título.

Tudo parece muito bonito e democrático, agradando a todos, certo?

Errado.

A internet existe, não é?

Basta um dia na plataforma para que o produto seja pirateado e jogado ilegalmente na internet. Logo, do que adianta deixar um título na plataforma por apenas um mês, sendo que estará eternamente na internet, para todos baixarem quando bem entenderem? Por mais que o longa estreia apenas na HBO Max dos EUA, no mesmo dia estará nos torrents brasileiros, argentinos e italianos. Não há limites ou fronteiras para a pirataria.

A briga é longa por um simples fato: os dois lados estão certos e equivocados ao mesmo tempo e na mesma medida. Tantos os defensores quanto os críticos da medida guardam bons argumentos. Resta aguardar e torce. O Cinema não vai morrer com a chegada dos streaming e com a decisão da Warner. Mas pode perder brilho, pode perder espaço e pode perder grandes lançamentos. A decisão da Warner parece não fazer sentido nem sob o ponto de vista econômico nem sob o prisma artístico.

É uma confusão, como tudo em 2020.

Nota

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