Batman: O Retorno e o Natal em Gotham

Imagem: IMDb/HBO - Reprodução

Um conto de Natal do Batman em Gotham City

Falar sobre Batman: O Retorno (1992) demanda mais do que simplesmente uma introdução qualquer. Como uma criança dos anos 90, eu e muitos dos nossos colegas aqui no Mix – além do amigo leitor, claro – temos uma memória forte desse filme, segundo numa tetralogia de filmes do Homem-Morcego de Gotham.

Não por um favoritismo pela DC ou pelo Tim Burton. Aliás, essa é uma observação pertinente. Esses filmes do Batman do Tim Burton são exatamente o que essa frase resume. São filmes do Batman do Tim Burton. Por ser palavra escrita apenas, talvez o amigo leitor não tenha pegado essa pequena diferença de tom, ela é fundamental.

Fita adesiva e paciência fazem muita diferença

O leitor atual de DC, ou até mesmo o fã dessa nova leva de filmes com o Affleck no papel – eu sei, surpreendente, mas eles existem – talvez não pegue essa pequena nuance. Esse não é um filme do Batman cheio de efeitos intrincados ou sombrio nos tons dessa leva de DC atual. Esse é um filme do Tim Burton.

E diferente do que a maioria da crítica passou a fazer, essa frase não é uma crítica de jeito nenhum. É um filme cinza, de grandes figuras extravagantes, com uma trilha sonora e sonoplastia memoráveis e maquetes e comportamentos bizarros… e isso é exatamente o que se espera de um filme dele. Acima de tudo isso, é um filme do Batman de Natal.

Eu ainda vou me alongar mais em exaltar o que são os vários feitos desse filme – que é o meu favorito pessoal daquela leva. Farei isso porque o nosso leitor mais jovem, que tenha sido uma criança do meio dos anos 2000, já cresceu num mundo de um cinema que caminhava para o que vimos nos últimos doze anos. Um cinema recheado de opções de filmes de heróis além até mesmo do que queríamos – precisávamos. Essa não era a nossa realidade como crianças do fim dos anos 80 e começo dos anos 90.

Queime querida, queime!

Até filmes como X-Men, o Filme e os Homem-Aranha do Sam Raimy e, posteriormente, o primeiro Iron Man, quebrarem essa barreira de que filmes de herói eram um nicho B – ok, essa é uma afirmação pretensiosa e discutível, mas os números especialmente dos dois filmes de Raimy são significativos e trouxeram a atenção da indústria para esse nicho, e aí depois foi Tonny Stark e madness stravaganza por todo lado.

Então para nós, esses filmes, olhados de cima por uma crítica mais descolada da realidade dos anos 90, eram o nosso contato mais próximo com um mundo em que os nossos heróis icônicos tomassem as telonas. Aliás, aqui mesmo na Coluna, nosso primeiro texto foi sobre outro dos filmes dessa leva de Batman dos anos 90, que você pode conferir aqui.

O Papai Noel de Gotham City: Max Shreck

A bizarra cena do nascimento e abandono do Pinguim, assim como a cena da “morte” da Selina e de seu renascimento como Mulher-Gato são testemunhas de algo que é muito singular no universo do Batman. A loucura de um (re)surgimento trágico são muito frequentes porque a insanidade dos vilões espelha um pouco da insanidade do próprio Bruce.

Claro, também não nos falta a cenografia caricata de grandes formas e a iconografia bizarra da Gotham de Burton, junto com a gangue bizarra e as várias imagens de gatos, além dos singulares pinguins voadores. E não podemos esquecer, num filme de tantas caricaturas, a bizarrice que é Christopher Walken como Max Shreck

Max Shreck, aliás, é um capítulo a parte. Caricato é um elogio muito frequente, mas o discurso megalomaníaco de “paz mundial” e o plano de roubar energia, além da frieza ao matar Selina. Essas pequenas coisas fazem de Max um vilão ainda mais odiado – e com final merecido – do que o próprio Pinguim.

Já que falamos nele, é impossível não apreciar Danny DeVito como Pinguim. Um personagem difícil de retratar como qualquer outro na DC, DeVito superou qualquer limite da bizarrice na sua interpretação, e preencheu Oswald Cobblepot de seus trejeitos e maneirismos.

O que foi que a curiosidade fez com o gato?

E o que dizer de Selina Kyle e Miss Kitty? Primeiro, é impossível não sentir pena da forma quase que exagerada – e até machista – que a personagem é retratada. Ela própria se intitula de adjetivos que não vou repetir e a sexualização da figura de Michelle Pfeiffer é óbvia desde antes da roupa de couro.

Aliás, a cena da criação da roupa junto com a destruição do apartamento é um verdadeiro deleite. Com o icônico letreiro de “o inferno é aqui” em neon que grita anos 90 e a frase da própria Selina. “Eu não sei se concorda, Miss Kitty, mas eu estou me sentido muito mais apetitosa” marca o mesclar de duas personalidades e a culminância de uma transformação. Uma transformação que só se separa plenamente na tristíssima cena final.

Imagem: IMDb/HBO - Reprodução
Imagem: IMDb/HBO – Reprodução

Michelle Pfeiffer dá a Selina Kyle mais do que simplesmente vida. Ela cria duas personas que são complementares e opostas ao mesmo tempo e colide elas na tela. Ao renascer como Mulher-Gato, muita determinação, ferocidade e até certa violência surgem. Mas sem apagar os sonhos, a cartunesca visão de uma vida em conto de fadas de Selina também está lá. A inofensiva Selina, cheia de sonhos que Max  jogou, covardemente, pela janela.

Um Batman como nenhum outro, com conflitos como nenhum outro

Essas personalidades conflitantes também se chocam com as personalidades do próprio Bruce Wayne. Certamente muito pode ser dito sobre Michael Keaton como Batman. A principal delas é que ele seria o perfeito Old Bruce Wayne no Batman do Futuro. A segunda coisa é que embora – e esse é o adjetivo dominante para essa época – tenha muito de caricato nele, Keaton fez um Batman marcante, de texto rápido, que envelheceu bem no papel.

O senso de humor na dinâmica com Alfred – algo que tentaram recriar nos filmes protagonizados por Affleck com Jeremy Irons, justamente numa piada sobre pinguins voadores – também é marca registrada aqui. Michael Gough trouxe um ar britânico ao papel de Alfred Pennyworth, e talvez seja a mais nostálgica lembrança que tenho do personagem. Muito similar ao efeito causado por Desmond Llewelyn ao interpretar o imortal Mestre de Armas Q, na franquia 007, Gough dá ao personagem um ar cuidadoso e carinhoso. Isso contrasta fortemente com o clima sombrio da mansão Wayne e da Bat-Caverna.

Há ainda a inegável atração entre Bruce e Selina. Desconsiderada a cena em que Walken nos brinda com “Bruce Wayne? O que você está fazendo vestido de Batman?”, essa atração quase fatal entre os dois tempera todo o segundo ato do filme. São dois personagens trágicos, presos nas suas cruzadas individuais e, mesmo assim, sonhando com esse futuro dos contos de fadas, onde os dois podem se consertar juntos.

O morcego, a gata e o pinguim… um Batman

Dizer que eu gosto do filme é quase desnecessário depois de tudo isso. É certamente o meu filme de Natal favorito, e eu revejo todos os anos no dia. Exatamente por ser o que é. Como um filme do Tim Burton, com trilha sonora de Danny Elfman, vemos um recorte agridoce de um conto de Natal na já sombria cidade de Gotham.

São esses pequenos detalhes, a neve, a árvore de Natal gigante, o clima festivo. Tudo isso é temperado com atuações singulares de Danny DeVitto e Michelle Pfeiffer, e até do próprio Keaton, que se supera em alguns momentos. São 126 minutos de um conto de Natal manchado pela extravagante loucura da própria Gotham – um espelho da loucura dos próprios personagens.

Símbolos icônicos para uma Gotham icônica

Cenas como a morte do Pinguim e suas divagações enquanto Max o enreda no esquema da prefeitura são únicas. Os discursos megalomaníacos dele também são simplesmente incríveis. Os vários guarda-chuvas malucos não deixam a desejar em nada, e o plano com os pinguins voadores é engraçado até hoje.

Todas as cenas de Pfeiffer como Mulher-Gato são espetaculares, e o conflito da personagem consigo mesma vai até as últimas cenas, emprestando ao filme o drama e emoção necessárias. A resolução final, que quase como um easter egg nos revela o destino dela também é belíssima.

O filme em si é belíssimo (do seu jeito melancólico), e continua excelente mesmo depois de quase 30 anos. Cheio de pequenas anedotas de produção, como o fato de que Michelle Pfeiffer usou 60 trajes ao longo das filmagens ou que a Warner precisava repor os cartazes dela porque eles eram roubados deixam ainda mais interessante.

Para sempre, como numa história de fadas do Batman

A crítica não foi em nada gentil – por ser incompreensiva em partes – com o filme na época. A “erotização” e o tom mais violento do filme são algumas das razões apontadas para a substituição de Burton. Isso inclusive nos levou a um diretor muito mais incompreendido que Burton, cujos filmes hoje deveriam ser muito mais reconhecidos: Joel Schumacher. Temos inclusive um texto aqui mesmo na Coluna sobre o Batman Eternamente.

Então, enquanto a própria HBO não nos presenteia com uma maratona do Homem-Morcego de Gotham, você pode se deliciar com essa maravilha no HBO Go. Se aventurar por Batman: O Retorno (1992) é mergulhar de cabeça na atmosfera dos anos 90 como vistos e imaginados por Burton, e tudo isso envolto no drama entre Batman e Mulher-Gato. É um filme de Natal feito em Gotham, e todo mundo – fãs de quadrinhos ou não – deveria conhecer essa aventura.

Sem sombra de dúvidas é o meu favorito dos filmes do Batman – incluindo os modernos. Esse pequeno conto de fadas acaba por durar para sempre. Mesmo sem um final feliz. Afinal, Selina Kyle nos lembra de guardar pelo menos uma vida para próximo Natal. Em tempos tão sombrios como esses, não me parece um mau conselho.

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