Blade II e o que era a Marvel de antes

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Porque as vezes a gente só quer sangue

Certo, esse vai ser um daqueles que precisa de um prelúdio. Afinal, o leitor mais jovem se deparou no cinema com o “afrofuturismo” no sucesso estrondoso da adaptação de Pantera Negra (2018) dos quadrinhos para o Universo Cinemático da Marvel. Entretanto, o mesmo leitor jovem talvez desconheça que, na aurora dos anos 2000, Blade já estava causando impacto nas telonas.

Mais do que impacto, eu diria. David S. Goyer (de quem vocês talvez se lembrem por roteiros como Batman Begins, Batman: O Cavaleiro das Trevas, Homem de Aço e Batman vs Superman: A Origem da Justiça) transita pelos três filmes, fazendo as vezes de roteirista em toda a trilogia e dirigindo o terceiro – e mais catastrófico – dos capítulos.

Ademais na ficha técnica, esse segundo capítulo, que vamos dissecar na divagação de hoje, foi dirigido por ninguém menos que Guillermo del Toro (que dirigiu, entre outras coisas Hellboy, Pacific Rim, A Colina Escarlate e A Forma da Água – que foi vencedor do Oscar de Melhor Filme e de Melhor Diretor).

Para um bom conhecedor da ficha técnica, só essas informações já dão o tom de que muito pode ser dito sobre essa trilogia, ainda mais sendo um selo mais… sanguinário da Casa de Ideias.

Mais sangue, mais tripas, mais explosões… MAIS

Esse é um dos motivos para ser o segundo capítulo da trilogia a figurar aqui na Coluna. Não só pelo meu apreço profundo ao “efeito del Toro” – que deixa tudo com uma pitada a mais de sombrio ou escatológico. Também, porque Blade II é uma combinação de muitas situações fortuitas.

Primeiro, não é o pior dos três. Blade: Trinity chegou em 2004 para ficar com esse título, abraçando uma galhofa excessiva e, com Jessica Biel e Ryan Reynolds (sim, o Deadpool antes de ser realmente engraçado), se igualando a títulos como Entrevista com o Vampiro (1994) – que um dia vai passar por aqui – e até o infame Rainha dos Condenados (2002) em termos de filmes com vampiro que são tudo, menos vampirescos.

Segundo, e esse é realmente o ponto importante, por estar desobrigado das responsabilidades de apresentar o personagem e ambientar o rico universo e mitologia que foram fardos no primeiro, Blade II tem espaço para toda a sanguinolência que nós queríamos desde o princípio. O filme se propõe a fazer absolutamente nada e, por não prometer expectativa, as excede.

Nada que um bom protetor solar não resolva

Aqui, contudo, cabe o grande pulo que del Toro fez. Confiando no carisma e no apelo de um elenco composto por Wesley Snipes (Blade), Leonor Varela (Nyssa Damaskinos), Norman Reedus (Scud) e Ron Perlman (Reinhardt) – além do retorno de Kris Kristofferson como Whistler – e nos efeitos com todo tom da New Line no início (trash) da carreira de Peter Jackson, ele se propõe a explorar as bordas desse universo sem dar a mínima para ele.

Exatamente isso. O que pode parecer só um amontoado, na verdade é o abandono dessa pretensa densidade textual, que resulta em excelentes cenas. Desde da rivalidade de Blade com Reinhardt e a dinâmica retomada com Whistler, além, claro, do romancinho com Nyssa Damaskinos, são apenas subtexto do que já existia.

Del Toro faz a opção de direcionar o nosso olhar para todas as coisas que já estavam lá e temperar isso com sangue, vísceras e desculpas esfarrapadas – como as armas de luz ultravioleta e um vampiro geneticista. Tudo isso acaba por dar um rush típico de zumbis ao universo vampiresco, marcando tendência do que viraria padrão.

Nem mesmo uma gota

Precisamos também trazer isso ao centro da discussão. As limitações técnicas certa feita pesem negativamente? Sim, isso vale para quase todos os filmes daquela época. Entretando, é preciso evidenciar diversidade em elenco e estilo, além da enxurrada de referências a cultura e estilo do fim dos anos 90.

Del Toro deu a Blade o espaço para se tornar algo mais. Ele deixou de ser a máquina movida por vingança do primeiro filme. Agora, ele assume o conflito com a sua própria natureza dual em alguns pontos, tudo isso temperado com pancadaria de gente grande. Isso tudo combinado a uma dose de artes marciais com luta de rua – na onda do que Matrix (1999) havia feito anos antes.

Além disso, e aqui direciono a minha divagação ao final, a Trilogia Blade é parte da aurora do fenômeno que foram os heróis no Cinema. Dessa primeira onda, filmes como Homem-Aranha, X-Men e Demolidor acabam por ser contemporâneos a ele. Além disso, ali começam a ser abertas as portas de um gigantesco Universo Cinemático. que desembocou no estrondoso sucesso dos Vingadores.

Então, se você tem que começar por algum lugar, que seja Blade II.

P.S.: Ah, e se você quiser alguns outros títulos com um uma dose maior de sustos, não deixe de acompanhar a nossa Sexta do Terror, outra coluna excelente aqui do Mix de Filmes.

Nota

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