Breve Miragem de Sol é primeiro – e bom – filme da Globoplay

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Breve Miragem de Sol é primeiro filme da Globoplay e já está disponível na plataforma

Com ecos de Taxi Drivermas sem o ímpeto de justiça com as próprias mãos, Breve Miragem de Sol é o primeiro filme do selo GloboplayTendo percorrido festivais em 2019, o longa de Eryk Rocha chega à plataforma neste domingo, 30. Entrando no campo das produções originais/exclusivas, a Globoplay mostra ousadia ao estrear com um filme introspectivo, de poucos arroubos dramáticos, e que se passa quase que inteiramente em um carro.

No voltante – do taxi e do elenco -, Fabrício Boliveira brilha como Paulo. Divorciado e tentando lidar com a distância do filho de dez anos, Paulo percorre as ruas noturnas do Rio de Janeiro. Entre uma corrida e outra, encontra-se com Karina (Bárbara Colen), enfermeira que conheceu no táxi.

Personagens são o centro da ação que se passa em um táxi no Rio

Breve Miragem não é um filme de narrativa, de plots, mas de personagens. Não possui uma história propriamente dita, ou uma ação a ser desempenhada pelo protagonista. Nesta perspectiva, é um recorte do cotidiano do taxista, em seus detalhes mais mundanos. Apático, Paulo vive dias e noites vazias, que jamais saem do comum. E Boliveira faz um trabalho notável ao expressar o cansaço e tristeza do sujeito. Sua voz é baixa, monocórdia, seus olhos parecem sem brilho, com pálpebras pesadas, prestes a fechar.

A situação muda com a chegada de Karina, e o momento de maior felicidade que testemunhamos em Paulo é quando ele canta Caetano, no táxi, enquanto troca um cigarro com a moça. É a única vez que vemos rugas de expressão se formarem no canto de seus olhos, graças a um sorriso que custara a chegar. Karina pode ser a breve miragem que surge no horizonte de Paulo. É por ser miragem, portanto, que a desesperança do motorista se torna mais latente: não é algo real. Por mais que ambos queiram, a vida do sujeito parece estar além da salvação. É apenas uma passagem, uma ilusão.

Breve Miragem de Sol é filme introspectivo, mas cheio de ideias

No processo, o filme ainda encontra espaço para um delicado retrato do Brasil moderno. Há o empresário que reclama da crise, apontando que teve que vender o barco. Aquele que diz que não pode trabalhar, enquanto segura um copo de bebida alcoólica. Quem passa pelo táxi representa um pouco do país. Os jovens no início, sem preocupação nenhuma com o bem-estar do motorista, são incapazes de decidir o próprio destino. Enquanto isso, Paulo constantemente aparece contando dinheiro, sempre em quantias pequenas, que mal recheiam uma carteira permanentemente vazia.

É a história de um homem que, desempregado, recorreu ao voltante de um carro, levando pessoas do ponto A ao B. É a realidade que muitos têm vivido nos últimos anos e parece ter se intensificado durante a pandemia. Em um cenário de desolação, qualquer ponto fora da curva é sinal de resgate.

Os grandes destaques vão para o diretor, Eryk Rocha, que mantém o ritmo e a qualidade visual mesmo preso ao interior do carro. Sua câmera é ágil e bem conduzida. Já Boliveira, vencedor do prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio, é a grande força do projeto. Depois de passar por uma intensa preparação nas ruas e táxis do Rio, o ator chega afiadíssimo em uma excelente produção nacional.

Tudo isso você confere a partir de hoje, na Globoplay.

Nota

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