Crítica: Era uma vez um Sonho mira no Oscar e acerta o dramalhão vazio e covarde

Era uma vez um sonho

Era uma vez um Sonho é aquele filme que surge todo o ano: promessa de prêmios que tropeça e tem um tumbo colossal. O novo longa de Ron Howard, lançado na Netflix, é um embaraço que mirou no Oscar e acertou o melodrama barato.

Não é um desastre total, mas erra o alvo por uma longa distância. Alguns defensores da fita alegam que a crítica destroçou o projeto por este focar nos eleitores conservadores e apoiadores de Trump, humanizando-os. O oposto, entretanto, é verdade.

Um dos maiores defeitos de Era uma vez um Sonho não é tomar um posicionamento político, mas ser quase que totalmente apolítico. Ao não assumir certos discursos, ou evitar discutir determinados posicionamentos, o filme vira um amontoado dramático vazio e covarde.

O mais próximo que Howard consegue chegar de qualquer política é mostrar Al Gore discursando em uma TV, ao fundo, por breves segundos. Mesmo aqui, é uma piscada totalmente distante daquilo que os personagens do filme abraçam.

Elementos dramáticos não compensam vazio e covardia de Era uma vez um Sonho

O fato é que Era uma vez um Sonho é baseado em uma história real. E, além disso, o protagonista é um republicano tradicional, ativo nas redes sociais e capitalista de risco.

Seus comentários na internet podem ter afastado alguns críticos, principalmente no conturbado cenário eleitoral dos Estados Unidos em 2020. Mas os problemas do filme são evidentes; além disso falta na história de Vance, o centro das atenções, algo realmente cativante ou minimamente interessante. Seu perfil, portanto, apesar de mimetizar um lamentável estadunidense moderno, nada tem a ver com as falhas da obra cinematográfica. É possível gostar de um filme mesmo que o protagonista seja um idiota, afinal.

Isso porque todos os potenciais elementos dramáticos são porcamente explorados pelo roteiro. Os problemas com drogas da mãe, interpretada com exagero por Amy Adams, são o tipo de artificio incansavelmente explorado pelo Cinema.

Ainda assim, o impacto da situação é baixo. A relação do protagonista com a avó (Glenn Close; esta sim, excelente), que poderia nortear o projeto, acaba com pouco tempo de tela. Sequências tolas como as do jantar entre advogados, soam totalmente desnecessárias, enquanto Close pouco tempo tem para brilhar.

Novo filme da Netflix perde a chance de traçar um belo e importante retrato de uma parcela da população estadunidense

Na tentativa de humanizar e fazer com que a audiência simpatizasse com um tipo comum de americano, comumente marginalizado, Howard e seu time acabam fazendo o oposto.

Todos os personagens são desinteressantes, frios ou puramente repugnantes. Além disso, o próprio protagonista acaba insuportável em diversos momentos. Tudo isso, mesmo que o roteiro tente o transformar em herói ou vítima da própria história. Desta forma, Era uma vez um Sonho poderia ser um importante e surpreendente retrato de um povo. O título original promete ser uma elegia, o último lamento de rostos e vozes esquecidas, mas soa apenas como caça-prêmio.

Muitos reclamam que as coisas são politizadas, que o debate social não deve permear a arte. Alguns lerão esta crítica e desaprovarão os comentários aqui expostos, principalmente os voltados à política. A grande questão é que o Cinema pode – e deve – ser político e relevante. Não é preciso tomar posições, tampouco assumir um espectro político. É totalmente possível trabalhar discursos sem criticá-los ou abraçá-los. Nesta perspectiva, desenhar um perfil branco e conservador da América não seria uma forma de negar ou abraçar estas pessoas, mas retratar fielmente uma parcela da população.

Assim, o filme acaba olhando demais para o próprio umbigo, contando uma história que desperta pouco ou nenhum interesse.

Nota

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