Crítica: estranheza e confusão em Estou Pensando em Acabar com Tudo

Estou Pensando em Acabar com Tudo

Estou Pensando em Acabar com Tudo traz estranheza, confusão e fragmentação em filme que promete dividir o público

O cinema de Charlie Kaufman é o mais estranho que o cinema hollywoodiano consegue chegar. Ao lado de David Lynch, o escritor de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças consegue a façanha de criar uma história confusa e insana e ainda assim receber reconhecimento e atenção. Em Estou Pensando em Acabar com Tudo, Kaufman investe pesado na reorganização de seus temas mais caros: paranoia e fragmentação.

Pois Kaufman é adepto da divisão, da desestruturação. Aqui, vemos a fragmentação da mente, do tempo, das lembranças, do relacionamento e das personalidades. Com isso, o texto e o visual não buscam juntar as peças para que estas façam sentido. Ao contrário: tudo é espalhado e embaralhado para que uma interpretação seja extraída. São temas recorrentes na carreira do roteirista e diretor, que já brincava com o apagamento e a perda de controle em Brilho, Adaptação, Sinédoque Nova York Anomalisa, para citar alguns exemplos.

Riqueza de detalhes enriquecem experiência 

Desta forma, Kaufman, assim como Lynch, quer ver o que há dentro da cabeça das pessoas, algo que fez de forma literal em Quero ser John Malkovich. Perceba que o verbo e o objetivo não é entender, mas apenas ver. Estou Pensando… não quer as respostas para a psique humana; o filme quer, entretanto, uma espiada. Busca entrar neste playground e brincar com as peças que são as lembranças e percepções que temos das coisas ao nosso redor. Assistindo ao novo projeto da Netflix é preciso adotar este ponto de vista de que tudo tem forma de memória, de interpretação. Nada é literal e é por isso que não existe linearidade ou lógica aparente em diversas cenas.

Assim, é notável que Kaufman tenha feito um trabalho tão primoroso enquanto diretor, tendo cuidado minucioso com o belíssimo visual do longa. Tendo começado como roteirista, e sendo um dos mais verborrágicos e narrativos, é interessante notar que Kaufman, enquanto cineasta, tem enorme apuro estético. Estou Pensando em Acabar com Tudo traz uma infindável riqueza de detalhes que torna a experiência ainda mais rica. E é por isso que o ideal é que o filme seja assistido mais de uma vez, para que as referências e sugestões sejam melhor apreciadas.

Pistas e metalinguagem ajudam a compreender o intrincado quebra-cabeças

Note, por exemplo, que pequenos detalhes surgem entrelaçados ao texto e a mise-en-scène. Um livro de maquiagens e o DVD de um filme encontram ecos na sequência final, que parece ilógica e totalmente deslocada no restante da obra, mas que faz todo o sentido na estrutura e nos conceitos desenvolvidos previamente. E Kaufman enche texto e imagem com pistas do que quer dizer: “Meus chinelos são seus chinelos”, “Não podemos forjar um pensamento”, Jake que parece reagir à narração em off de Lucy, a foto de infância, as pinturas.

Assim, mais uma vez, Kaufman traz a metalinguagem ao centro de sua obra. Embora não extrapole o conceito como em Sinédoque, seu primeiro longa como diretor, o cineasta tece vários comentários e elabora vários sequências que giram e acabam em si, num exercício metalinguístico eficiente. Neste perspectiva, o filme é tão meta que os nomes reais dos próprios protagonistas são quase idênticos: Jesse Plemons e Jessie Buckley. É a realidade, o exterior, dando pistas sobre a ficção, sobre a verdadeira face do simulacro proposto por Kaufman.

Filme é baseado em livro “menos” insano

Adaptado do livro homônimo de Iain Reid, Kaufman opta por uma abordagem mais poética e sentimental. Enquanto o romance é mais direto e precisa explicitar determinados acontecimentos, a adaptação tem outros recursos para contar a mesma história. É curioso que o cinema, tendo muito mais ferramentas e artifícios à disposição, acabe mostrando menos e confundindo mais. A literatura, por outro lado, não contando com o som e os apoios imagéticos, por exemplo, precisa tornar tudo mais palatável para fazer o menor do sentidos.

Desta forma, o romance de Reid é bem mais fácil de se compreender. Assim, caso queira mergulhar um pouco mais na psique dos personagens e entender definitivamente o que está acontecendo, o livro é uma forte recomendação. O filme, por outro lado, bebe mais na fonte do surrealismo, da beleza e da falta de rigidez da poesia. No universo de Kaufman, personagens e narrativa ganham características únicas, que fazem sentido apenas em sua singular visão de mundo. No livro a narrativa é mais voltada para o thriller, para a fragmentação da personalidade do protagonista. O filme assume uma abordagem mais sensível, do homem que revive sua vida através de tristes e desconexas lembranças.

Não parece, mas filme dá todas as ferramentas para ser compreendido

Com fotografia espetacular, que sufoca e confunde através de uma razão de aspecto reduzida, Estou Pensando… ainda traz uma porção de atuações memoráveis. E o jantar do segundo ato é um dos pontos altos do cinema em 2020. Buckley, Plemons, Collette e Thewlis brilham com o auxílio de ótimos diálogos e de uma direção de arte que brinca com a percepção do público (note que as roupas, objetos, cores e personalidades mudam a cada take).

Sem facilitar a vida do espectador, mas lhe entregando todas as ferramentas necessárias para eventual interpretação, Estou Pensando em Acabar com Tudo é o tipo de obra que será reverenciada por uns e execrada por outros. Na esteira do ame ou odeie, o longa raramente suscitará opiniões divididas. O grande diferencial é que sempre haverá uma opinião, e esta provavelmente será passional, forte, decidida. Ao conseguir extrair estes sentimentos do público, Kaufman já conseguiu brincar no seu playground favorito sem que você nem percebesse.

Nota

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