Crítica: Eu me Importo é suspense com protagonista desprezível

Eu me Importo

O público precisa de uma âncora dentro de uma história. Seja um filme, série ou livro, é imprescindível que a audiência se conecte a pelo menos um personagem. Até mesmo as narrativas pessimistas, protagonizadas por anti-heróis, possuem uma ligação com o lado de cá da tela. Nós torcemos por Don Corleone, Walter White, Tony Soprano, Daniel Plainview e tantos outros. Eles são carismáticos, humanos e interessantes, apesar de toda a maldade que podem possuir em seus atos e corações. Marla, de Eu me Importo, não desperta nada de positivo, o que coloca todo o projeto da Netflix à beira do precipício.

É irônico, portanto, que não consigamos nos importar com ninguém em um filme chamada Eu me Importo. A Marla de Rosamund Pike é simplesmente um ser desprezível. E não é por dar golpes que a personagem se torna asquerosa. Já vimos uma infinidade de ladrões e bandidos roubando nosso carinho e atenção. Em Estrada para Perdição, Tom Hanks fugia da máfia enquanto roubava bancos ao lado do filho, uma criança. Ainda assim torcíamos por sua segurança e sucesso. O mesmo serve para o já citado Walter White. Apesar de toda a monstruosidade, esperávamos que ele conseguisse se safar.

Marla é um dos personagens mais desprezíveis dos últimos tempos

O problema com Marla, protagonista deste projeto, é que torcemos para que ela se dê mal. Muito mal. Aplicando golpes em velhinhos indefesos e família fragilizadas, Marla tem um lucrativo negócio cujo principal motor é roubar os bens e o dinheiro de idosos doentes, senis ou muito velhos para qualquer confronto. A jogo muda de figura quando a bandida, ao lado da parceria e amante, encontram uma suposta mina de ouro: uma senhorinha que pode render muita grana. Até que se descobre que a tal velhinha tem uma família e um histórico terríveis.

Neste ponto, Eu me Importo vira um jogo de gato e rato (ou simplesmente gato e gato que se odeiam) onde a família criminosa da senhora acaba fazendo de tudo para derrubar a loira criminosa. Num ninho de cobras, acabamos torcendo para os mafiosos russos matadores de inocentes. Isso tudo porque é quase impossível gostar de Marla e seus parceiros. Só que também é difícil torcer por ser algozes. Assim, o filme é um amontoado de lixos humanos que não merecem vencer e se dar bem.

Roteiro e atriz falham em humanizar uma difícil personagem

Grande parte desse problema se dá pelo roteiro e por Pike. O texto não consegue criar um background para a personagem, uma base que torne-a mais humana. Ela é simplesmente uma pessoa ruim e extremamente ambiciosa. Não sabemos o que a levou para este ponto. Além disso, os diálogos preferem ter efeito ao invés de peso. Marla fala para se exibir, não para ser entendida ou aceita. Neste sentido, chegamos a Rosamund Pike, incapaz de humanizar uma difícil personagem.

A atriz abraça uma persona que já criara em Garota Exemplar. A diferença é que no outro filme tínhamos David Fincher no comando e algumas âncoras espalhadas. O personagem de Ben Affleck, apesar de repreensível, era uma bússola dentro da história. Aqui, Pike fortalece a vibe implacável, mas não sabe dosar a força com fragilidade. No fim, Marla é uma coisa só, e nem seu relacionamento com Fran, sua parceira de crime, a torna mais tolerável.

Apesar de tudo, funciona como passatempo

Apesar da incompatibilidade entre público e personagem, o roteiro tem boas intenções e sacadas. Trata-se de uma eficiente crítica ao capitalismo e à cultura norte-americana de “ganhar a qualquer custo”. Nos minutos finais, com o discurso de Marla, tanto a personagem quanto o texto tentam justificar suas decisões: “sou bom em lidar com dinheiro, ou com pessoas?”. É a ideia de que não é possível ser mais de uma coisa, ou ter vários talentos e habilidades. O problema é que, na prática, no mundo real, as pessoas são muitas coisas, sejam elas positivas ou negativas.

No último segundo o filme parece condenar a vida de sua protagonista. Mas é tarde. Depois de construir seu – péssimo caráter – por quase duas horas, e aprovar o estilo de vida, já não vale mais fazer um mea culpa. Depois de dedicar um tempo enorme mostrando que o crime compensa, não há cena que faça se considerar o contrário.

Ainda assim, Eu me Importo é um bom passatempo. Com diversas reviravoltas, a trama se desenrola deixando o espectador atento e apreensivo. Caso seja lembrado no futuro, será pela raiva que desperta. De resto, ninguém se importa.

Nota

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