Crítica: Malcolm & Marie tem bom roteiro e show de atuações

Malcolm & Marie

Sam Levinson é um dos nomes mais interessantes da indústria atual. Criador e responsável por Euphoria, sucesso em série da HBO, o jovem, filho de Barry Levinson (Rain Man, Bom dia Vietnã) demonstra talento nas páginas e na câmera. Depois de um longa, Assassination Nation, e de Euphoria, o cineasta já provou com folgas o talento para criar personagens e diálogos interessantes, além de sequências visualmente impactantes. Com Malcolm & Marie, Levinson catalisa o que vinha experimentando na TV: monólogos densos e imagens fortes, que ditam o ritmo.

Pois um filme como Malcolm & Marie precisa de uma direção firme, que mantenha o ritmo em alta. Verborrágico e encerrado em uma casa, o filme precisa de um visual arrojado para manter ativa a atenção do público. E na maior parte do tempo, Levinson consegue. Os primeiros minutos, por exemplo, são um plano-sequência que acompanha, de fora, uma conversa que acontece dentro da residência, numa escalada de tensão que prepara o terreno. A fotografia em preto e branco e os movimentos de câmera dão o compasso, mantido com total segurança por dois atores em total domínio de sua arte.

Zendaya é a força maior de Malcolm & Marie

Sim, porque o filme funciona principalmente pela dupla central. Apesar do bom trabalho de Levinson, a vértebra da obra é Zendaya e John David Washington. A jovem atriz, que também tem ganhado o mundo com Euphoria, traz um papel totalmente diferente daquilo que vinha fazendo. E a maior prova disso é a insistência de alguns em apontar a diferença de idade entre ela e Washington, ou o desalinho de sua personalidade com a da personagem.

O fato é que Zendaya é uma mulher adulta, e este é um papel que pode abrir novos caminhos para a atriz. Enquanto seu parceiro de cena tem um papel mais explícito, de arroubos verbais e físicos, sua Marrie é um tanto introspectiva. Evitando discussões até onde é humanamente possível, Marie tenta contornar provocações e ir direto para a cama. Malcolm, agitado com a noite, quer confronto, quer respostas e atenção. Nesta perspectiva, parece que Zendaya apenas reagirá.

Filme se repete e exagera na duração

O roteiro e a atriz, entretanto, viram o jogo, e Marie logo se torna a âncora do projeto. Depois de entrar na briga, Marie não quer sair, e apesar de ser tachada como desequilibrado pelo companheiro, a jovem demonstra equilíbrio e enorme capacidade argumentativa. Assim, por mais que Malcolm a destrua com palavras, Marie é igualmente capaz de machucar e jogar verdades na cara.

Neste vai e vem de discussões, o filme se enreda em repetições e na longa duração. Alguns argumentos são esgotados, ao passo que os comentários sobre o Cinema e a Arte soam muitas vezes vazios e soberbos. Malcolm – e Levinson – não percebem que é papel da crítica cinematográfica fazer justamente aquilo que ele tanto condena. É um dos papeis desmembrar sequências e politizar o discurso. Se Malcolm e Levinson não compreendem isso, ambos estão fazendo uma arte equivocada.

Roteiro pesa a mão no discurso, mas resultado final é positivo

Desta forma, Malcolm & Marie perde forças ao deixar o casal de lado e focar em discursos maiores que o conflito conjugal. O filme se torna, portanto, veículo para Levinson expor suas opiniões deturpadas. Trata-se, porém, de uma via única. Enquanto na narrativa Marie responde Malcolm a altura, na realidade apenas Levinson fala, enquanto seus alvos não gozam de tamanho alcance e público.

Malcolm & Marie é, enfim, um bom drama, com bons diálogos e atuações excelentes. Levinson, ainda que escreva e dirija muito bem, precisa amadurecer os discursos e as abordagens: nem tudo que sai de sua cabeça é ouro e nem tudo precisa ir para o produto final. Se alguns diálogos fossem apagados e algumas cenas cortadas, o novo lançamento da Netflix poderia ser bem melhor.

Nota

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