Crítica: Mank, da Netflix, é bela homenagem ao Cinema e chega forte para o Oscar

Mank

Quando a voz de Orson Welles surge pela primeira vez em Mank, ela tem a mesma antecipação e reverência de um personagem épico, como se fosse o maior vilão de um filme da Marvel, DC ou Star Wars. Pois o cineasta e diversos personagens vistos aqui possuem a aura de heróis – ou vilões – e são tratados como deuses. O último longa de David Fincher é a mais nova homenagem ao Cinema feita pelo próprio Cinema. Após décadas de preparo, altos e baixos, o projeto ganha as telas através da Netflix e garante contornos atuais, que dialogam com a conturbada contemporaneidade política e social. Parece que Mank estava apenas esperando o tempo certo para nascer.

Pois, dentre outras coisas, Mank fala sobre fake news, sobre a construção – ou desconstrução – de caráter e imagem através de mensagens, áudio e vídeo. Em um mundo onde eleições são decidas na base da mentira, ver o papel de um homem dos anos 1930 moldar a política através do audiovisual é quase irreal, mas escancara: a tal “pós-verdade” não é produto novo, só passa por diferentes plataformas. Nesta perspectiva, Mank deve ser um dos filmes da temporada de prêmios que mais e melhor dialoga com o contexto atual. Essa ponte é uma ironia, já que o filme de Fincher é uma ode ao Cinema clássico, filmado em preto e branco e inspirado pela criação de um dos maiores títulos do Cinema passado: Cidadão Kane.

Os gloriosos bastidores do Cinema da década de 1930

Na trama, Herman Mankiewicz é um conhecido nome do escalão hollywoodiano. Em baixa, o sujeito acaba se envolvendo na criação do filme de um promissor cineasta: Orson Welles. Encarregado do roteiro, Mank acaba sofrendo um acidente, que o joga na cama, sem poder caminhar. Neste duro período, começa a escrever o roteiro do que se tornaria Cidadão Kane. No filme de Fincher, assim como no clássico de Welles, a trama vai e vem no tempo, criando um mosaico ora confuso ora surpreendente sobre a vida de uma complicada figura.

Entretanto, não se engane: Mank é mais sobre a vida do roteirista – e os percalços que o levaram a Kane – e menos sobre a produção do clássico de Welles. O diretor, aliás, jovem e intempestivo, aparece em pouquíssimas cenas. Nomes como Louis Meyer e Upton Sinclair são muito mais frequentes e importantes na narrativa do que o de Orson. Desta forma, não espere assistir os bastidores daquele que é considerado o melhor filme da história. Trata-se, portanto, de um breve estudo acerca de um homem difícil que não consegue se encaixar em uma intragável sociedade, mesmo que o que mais queira é tentar e se integrar.

Visual irretocável deve garantir diversas indicações ao próximo Oscar

Como se trata de um filme de David Fincher, precisamos encarar dois fatos: é um projeto tecnicamente irretocável e um longa sem emoção. O que deve ficar claro é que uma fita não precisa se emocional para agradar. Excetuando-se O Curioso Caso de Benjamin Button, toda a filmografia de Fincher se ancora no racionalismo e na falta de emoções – inclua aí seus trabalhos na TV: House of Cards e Mindhunter. Mank não foge a regra, e a falta de calor pode afastar os espectadores mais desavisados.

Ainda assim, a parte técnica é suficientemente boa para garantir o deleite visual. Fotografado em preto e branco, o novo lançamento da Netflix ainda conta com os nomes habituais do time de Fincher. Na trilha sonora estão Atticus Ross e Trent Reznor, experimentando faixas mais clássicas e contidas, diferentes das modernas e tecnológicas de títulos mais recentes. Na edição, Kirk Baxter garante o dinamismo de uma obra que tinha tudo para ser enfadonha. Ainda que se ancore em diálogos e sequências internas, Mank jamais se torna monótono. O roteiro permanece ligeiro do início ao fim, enquanto a edição vai ditando o compasso de cada detalhe.

Gary Oldman encabeça elenco talentoso 

No elenco o destaque vai para Gary Oldman, mais contido que o de costume. Ainda que tenha momentos em que pode irromper em histrionismos, o ator mantém o controle e entrega uma das melhores performances de sua carreira. Dentre os coadjuvantes, que mais chama atenção é Arliss Howard, como o chefão da MGM, Louis B. Meyer. O ator, conhecido por Nascido para Matar, rouba a cena em um diálogo rápido em que sintetiza o funcionamento de sua empresa e do cinema de outrora. Amanda Seyfried e Charles Dance também se destacam e são peças vitais na tapeçaria cheia de referências de Fincher.

Confuso nos minutos iniciais e sem nenhum grande arco ou conflito, Mank é mais um ensaio sobre uma época do que uma aventura ou drama específico. Além disso, a falta de emoção, típica na filmografia de Fincher, pode afastar uma boa parte do público. Para completar, a densidade política e os inúmeros nomes que surgem podem confundir um público mais casual. Nesta perspectiva, é um dos filmes menos populares e acessíveis do cineasta. Nada disso, entretanto, tira o brilho de uma obra que respira Cinema e chega como um dos melhores títulos da Sétima Arte em 2020.

Nota

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *