Crítica: Mulan não ousa, mas cumpre seu papel

Mulan

Mulan começa problemático, mas felizmente encontra o caminho e cresce com o passar do tempo

Depois que a Disney descobriu uma mina de ouro nas adaptações em live action de clássicos animados, não parou mais. Mulan é mais um exemplar dessa nova leva de produtos que reafirmam uma das mais polêmicas características do estúdio: a de requentar ideias e projetos à exaustão. Apesar de alguns bons títulos, nenhuma releitura em carne e osso é digna de ser relembrada. Para completar, nenhuma supera a obra original.

Mulan repete o feito de O Rei Leão, por exemplo. Trata-se de um bom filme, com a dose certa de referências e uma porção calculada de mudanças. Não representa, entretanto, uma ruptura na feitura quase automática dos produtos Disney. O que há inovador ou relevante na releitura recente já estava presente na animação de 1998. Saem, entretanto, as músicas, o humor e, claro, Mushu.

Edição é o grande problema do longa, que se sai bem em outros aspectos

De todo modo, o saldo é positivo. Com um início vergonhoso, que quase põe tudo a perder, Mulan reencontra o ritmo e o rumo assim que a personagem entra para o exército. Ao ficar mais próximo da animação que o longa de Niki Caro ganha força e a diretora se mostra confortável para desenvolver seus personagens. Apesar de exagerar em alguns movimentos de câmera, que se repetem de forma cansativa, a cineasta encontra fôlego e surpreende em algumas tomadas. O primeiro duelo entre Mulan e Honghui, durante o treinamento, é filmado com agilidade e ótimos movimentos de câmera.

Este cuidado, entretanto, não se estende a todo o longa. E é impossível não notar a vergonhosa edição de David Coulson, que prejudica mesmo a melhor das sequências de ação. Embora a diretora tenta imprimir ritmo e beleza aos quadros e movimentos, Coulson atrapalha com cortes absurdos e carência quase total de lógica espacial e ritmo. Logo nos primeiros minutos, quando a jovem Mulan percorre os telhados atrás de uma galinha, a montagem chama atenção para si através de cortes abruptos que prejudicam o entendimento e a imersão do público. Embora se contenha no decorrer do longa, Coulson volta a passar vergonha em alguns momentos isolados.

A edição é realmente o único elemento repreensível do projeto. Embora alguns efeitos práticos (o uso de cabos é precário em alguns momentos) e especiais não funcionem, a qualidade técnica de outros setores é notável. A fotografia de Mandy Walker, por exemplo, faz jus aos visuais arrebatadores de longas chineses, aliando-se aos figurinos e à direção de arte para ressaltar cores e encher os olhos. Neste sentido, Mulan é o tipo de filme que se beneficiaria imensamente de uma tela grande de cinema.

Mulan funciona, mas merecia a enorme tela de um cinema

Embora funcione na TV, Mulan é um épico de 200 milhões cujo visual merecia uma tela maior e uma qualidade de som que só a sala de cinema pode proporcionar. Assim, é possível que grande parte do brilho do projeto tenha se perdido neste lançamento forçado em streamingDe todo modo, não surpreende a decisão da Disney em lançar o projeto diretamente na plataforma digital. Apesar de ser um bom filme, Mulan tinha grandes chances de ser um fracasso financeiro, principalmente se levarmos em conta seu altíssimo custo de produção.

Com um elenco talentoso e algumas decisões elogiáveis (é bacana perceber que a vilã, na verdade, não é tão má quanto parece), Mulan é o live action cujo timing é o mais acertado de todos. Em um mundo muito mais globalizado e aberto que o noventista, a trama de Hua Mulan encontra ecos muito mais abrangentes e catalisa vários debates que precisam chegar ao grande público, principalmente o mais jovem. Neste sentido, Mulan cumpre seu papel e diverte, mesmo que não invente a roda ou subverta a cartilha da Disney.

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