Crítica: Mulher Maravilha 1984 tem ótimo elenco, mas não funciona por completo

Mulher Maravilha 1984

Ao lado de Tenet, também da Warner, Mulher Maravilha 1984 foi um dos filmes que mais sofreu com a pandemia e consecutivos cancelamentos. Aos 45 do segundo tempo, parece que o estúdio chegou com a alternativa: lançar nos cinemas e na plataforma da empresa, a HBO Max. Ao mesmo tempo. E no final das contas a continuação de Mulher Maravilha não salvou o cinema em 2020, assim como Tenet também não salvou. O resultado é positivo, mas traz diversos problemas que fazem com que a produção empalideça quando comparada ao primeiro título ou a outros lançamentos da DC.

Para começar, 1984 sofre de um mal comum aos filmes de heróis, principalmente às continuações: duração exageradamente longa. Com duas horas e meia, o segundo capítulo de Mulher Maravilha acaba se repetindo e, às vezes, fica sem ter o que falar. A motivação do vilão Max Lord nunca fica realmente clara ou satisfatória, enquanto Minerva funciona, mas mostra as garras – literalmente – nos últimos minutos da fita. Os vilões só não são desastres completos porque seus atores estão em ótima forma. Pedro Pascal, por exemplo, surfa na crista da onda de sua carreira, sendo protagonista de The Mandalorian e roubando a cena deste 1984. 

Kristen Wiig, Pedro Pascal e boas cenas de ação garantem o divertimento

Kristen Wiig também não deixa a oportunidade escapar e faz o possível com uma personagem totalmente unidimensional. Quantas vezes veremos o cientista que usa óculos, tem penteado e roupas estranhas e não consegue se enturmar com colegas de trabalho? Enquanto dá alguns passos progressistas, Mulher Maravilha regride em quesitos inaceitáveis. Outra vergonha que o roteiro passa é a forma como retrata homens não-brancos e do Oriente Médio, cujos maiores desejos são a separação e a conquista de armas nucleares.

Além disso, toda a trama dos desejos parece criada apenas para trazer Chris Pine de volta. E o retorno do ator funciona em partes, já que o romance da dupla parece jamais decolar. Patty Jenkins, pelo menos, faz um ótimo trabalho de ambientação, criando um dos cenários oitentistas mais competentes do Cinema e da TV. A diretora ainda se sai muitíssimo bem no comando das cenas de ação, criando sequências de luta e perseguição muito eficientes.

São alguns detalhes que surpreendem pela falta de cuidado: erros básicos de continuidade chamam atenção pela frequência. Note a cena em que Diana e Minerva se encontram pela primeira vez: as folhas na pasta da cientista somem e aparecem em inúmeras posições diferentes. E as gafes não param por aí: várias vezes a equipe do longa parece incapaz de criar um simples plano/contra-plano, roubando a atenção de qualquer um que preste o mínimo de atenção no que assiste.

Entre erros e acertos, Mulher Maravilha 1984 termina com saldo positivo

Gal Gadot, felizmente, segue segura e carismática no papel. Sua Mulher Maravilha é marcante e protagonista da própria história (algo que não acontece com o Batman, por exemplo, que geralmente empalidece ao lado de seus coadjuvantes). Nas mãos de Jenkins, cineasta competente e mulher, Gadot e 1984 funcionam sem falas ou cenas sexistas. Ainda assim, o humor do longa soa deslocado em alguns momentos, provando que a fórmula do filme de herói engraçadinho já começou a enfraquecer.

Entre um detalhe e outro, Mulher Maravilha 1984 termina com saldo positivo. O desfecho funciona melhor que o do primeiro filme, que pecava pelo excesso comum aos épicos da DC no Cinema. Na sequência, o ato final tem escala global, mas se resolve na problemática pessoa, íntima. Neste sentido, Gadot e Pascal se sobressaem, caprichando no fator humano que tanto falta aos filmes do gênero. Ao reconhecer defeitos e buscar a mudança geracional, o vilão encerra um arco interessante, que funciona principalmente graças ao seu ator.

Divertido e com ótimo elenco, Mulher Maravilha 1984 funciona, mas deve ser encarado com senso crítico ativado. Embora acerte em algumas posturas, acaba tropeçando em outras. Além disso, revela problemas que têm ficado cada vez mais incontestáveis no cenário dos filmes de heróis. Enquanto se prepara para novos capítulos de sua tumultuada franquia, a DC precisa dar um passo para trás e analisar o que tem funcionado e o que precisa mudar no universos dos super-poderosos. Embora sejam diversões escapistas, filmes de heróis podem marcar, e Mulher Maravilha 1984, infelizmente, não marca.

Nota

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