Crítica: Nomadland é merecidamente um dos favoritos para o Oscar 2021

Nomadland crítica

Nomadland é o novo filme com Frances McDormand

É comum darmos destaque para filmes de desenvolvimento de personagem nas temporadas de premiação. Grandes concorrentes para os grandes prêmios, longas mais introspectivos e focados numa figura central interpretada por um grande ator são os preferidos para as nomeações anuais. Nomadland (2020), da diretora Chloé Zhao, pode parecer o caso, à primeira vista. Focado na personagem de Frances McDormand – mais uma vez favorita ao prêmio pouco tempo depois de “Três Anúncios para um Crime” -, a trama mostra os efeitos da recessão econômica e a criação de um novo estilo de vida nos Estados Unidos.

Beirando o realismo, o filme só tem dois personagens fictícios: a protagonista de McDormand e seu “interesse amoroso”, vivido por David Strathairn. Todos os outros personagens em tela, incluindo o conhecido guru da vida nômade Bob Welles, são pessoas reais. Muito disso vem do fato do longa se basear em um livro homônimo, de relatos factuais. Assim, o filme reforça o que sua cena de abertura apresenta para o público, uma realidade viva que o público pode quase tocar. No filme, a personagem de Frances se vê sem perspectiva depois da morte do marido e do fechamento da fábrica onde trabalhava – o que levou ao fim de sua pequena cidade, que vivia dos trabalhadores da indústria local.

Realismo misturado com ficção

A Fern de McDormand não é real, mas poderia sim. O sentimento que o filme carrega é, essencialmente, esse. Ao acompanhar a jornada de Fern não temos como foco primário entender ela, como pessoa. Tentamos, no decorrer do filme, entender aquele contexto. O que leva uma pessoa à abandonar a estabilidade da vida entre quatro paredes para viver viajando, sem emprego fixo e sem laços em nenhum lugar? “A tirania do dólar”, como o filme mostra em certo momento.

O pulo do gato está ai: em qualquer filme de desenvolvimento de personagem, a ideia é irmos do ponto A para o ponto B na narrativa, entendendo os motivos individuais para as decisões daquele personagem. Nomadland é maior que isso! Ao fim de seus minutos, não temos certeza se os motivos individuais de Fern sequer importam. O seu redor é muito mais complexo, a questão financeira fala muito alto e a liberdade que deveria ser inerente ao sistema capitalista não era sentida pelos personagens enquanto estavam devidamente empregados. Essa é a crítica – e o filme faz isso muito bem.

Se não fosse um rosto super reconhecido de uma ganhadora de Oscar, Frances McDormand passaria por mais uma pessoa real, nômade e no deserto. Seu entrosamento com o resto do elenco, de pessoas que realmente optaram por aquele estilo de vida, é o que dá o tom do filme. Por vezes confusa ou até contraditória, de certa forma a personagem da atriz vai do ponta A ao ponto B. Não no sentido de desenvolvimento de personagem padrão. Aqui, a diretora e roteirista não acha que a personagem precisa mais evoluir, pelo menos não agora, ela não estava pronta. Aqui, ela precisava apresentar seu lado, se fazer entender por nós, telespectadores. E isso ela consegue com sucesso.

Favorito no Oscar

Dessa forma, Nomadland é um dos favoritos para chegar ao Oscar 2021 com força. Não é por pouco, os méritos do filme são grandes. Seu estilo é mais uma vez a prova da mudança dos tempos. Alguns anos atrás, um filme com uma pegada mais indie dessa forma não poderia brigar com grandes produções milionárias dos grandes estúdios. Agora pode. Que bom!

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Nota

Guilherme Bezerra

Pernambucano estudando Jornalismo na Paraíba. Aficionado por cinema, sou fã de Tarantino e Nolan. Acredito em estudar a arte do cinema e espalhar para o máximo de pessoas as discussões e reflexões que podem encontrar através dessa arte. Luto pela valorização do cinema nacional.

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