Crítica: O Diabo de Cada Dia, da Netflix, tem grande elenco, mas podia ser melhor

O Diabo de Cada Dia

O Diabo de Cada Dia discute o peso da violência e o lado sujo da religião em narrativa crua e complexa

O Diabo de Cada Dia é um longo e interessante comentário sobre o peso da violência nas vidas de pessoas comuns. Dirigido por Antonio Campos e com elenco estelar, o novo filme da Netflix tem ares de obras dos irmãos Coen ou de Cormac McCarhy. O sotaque carregado está lá, bem como os personagens esquisitos e a violência suja e inesperada. Falta, aqui, entretanto, um melhor desenvolvimento de personagens, um lastro mais firme que sustente o caráter épico que o roteiro tenta incutir.

Na trama, que percorre anos e se situa em duas cidades, acompanhamos uma série de personagens que se cruzam em meio a decisões equivocadas e ironias do destino. Recém dispensado da Guerra, um jovem conhece uma garçonete e, junto, têm um filho, Arvin. Perto dali, um religioso fervoroso se casa com uma jovem, que tem um triste fim. Ao mesmo tempo, um casal de serial killers deixa um rastro de violência por onde passa. Anos mais tarde, um estranho pastor chega à cidade de Arvin, agora crescido, e vira vidas de ponta-cabeça.

O Diabo de Cada Dia é baseado em excelente romance de Donald Ray Pollock, lançado este ano no Brasil

Baseado no romance de Donald Ray Pollock, O Mal Nosso de Cada Dia, publicado este ano pela editora Darkside, o filme conta uma história que seria mais adequada à televisão. Com uma galeria grande e variada de personagens, a narrativa de Pollock, que vai e volta no tempo e no espaço, cresceria em uma estrutura episódica. Faltou tempo para encaixar todas as pequenas sequências de drama e ação do livro.

Desta forma, os personagens carecem de um desenvolvimento mais aprofundado ou mesmo interessante. Tirando Arvin, que é o protagonista oficial da história, os demais acabam esquecidos na maior parte do tempo. Antonio e seu irmão, Paulo, que também escreveu o roteiro, chegam a eliminar um personagem no início da história (e não no fim, como no livro), apenas para não ter de lidar com mais um núcleo. Ainda assim, o texto e a direção patinam na alternância das histórias.

Violência é o elo – e o motivo da separação – de todos os personagens

O casal de assassinos, por exemplo, tomam grande parte do romance, mas na adaptação aparecem em pontos parcos e isolados. No terceiro ato, quando as histórias convergem, o impacto não chega, simplesmente porque não nos importamos – ou não tememos – aquelas pessoas o suficiente. Ainda assim, Tom Holland faz um excelente trabalho como Arvin, mesmo rodeado de outros grandes atores. E aqui, vale o destaque para Robert Pattinson, que faz um trabalho de voz esquisito que beira o assustador, mas funciona.

O que liga todos os personagens é a violência, pura e simples. A agressão e a morte não são a resposta, tampouco são positivas. A mensagem de O Diabo de Cada Dia é clara: a violência só leva à tristeza e desolação, e todos os personagens que recorrem a ela acabam punidos. Quando Arvin e seu pai têm uma tarde violenta e demoram a voltar para casa – quando retornam, a matriarca está inconsciente, nos estágios iniciais de um câncer mortal. Quando Arvin, quase adulto, decide tomar o rumo da vingança e deixa sua irmã sozinha pela primeira vez, ela conhece o perigoso pastor Teagardin.

Narrativa de causa e efeito em épico que merecia mais tempo e cuidado

Todas as decisões que assumem a violência tem uma reação adversa, igualmente suja e punitiva. A diferença de O Diabo de Cada Dia para outras histórias mais positivas e esperançosas é que o ciclo parece nunca terminar. Arvin é o protagonista porque ele é o forasteiro. É ele que veio de fora (no ônibus, ele é a única criança que não é parente de ninguém – ou filho de parentes), mas é igualmente afetado pela escuridão do lugar. É interessante, portanto, perceber como a religiosidade (que também é perigosa aqui) e a violência têm papel fundamental no crescimento do jovem, que é rodeado por ambas diariamente. Vale pensar, ainda, em como a vida do rapaz seria diferente se um detalhe ou outro fosse diferente.

A religião, diga-se de passagem, é fruto de dores constantes. É ela o catalisador da maioria dos ator sádicos vistos aqui. Seja por ignorância ou por vontade própria, os personagens vestem o casaco blindado da religião para espalhar maldade pelo mundo. E são os respingos dessa maldade em pessoas inocentes que aumentam a tragédia de O Diabo de Cada Dia. Neste sentido, o próprio caminho da “salvação” leva para o mesmo fim: dor e perda.

Tecnicamente elogiável, filme tinha tudo para ser um dos melhores do ano

Com ótima direção de arte (é possível sentir a sujeira de cada objeto, roupa e pessoa) e boa trilha sonora, O Diabo de Cada Dia é tecnicamente elogiável. Antonio Campos faz um trabalho correto, mas perde a chance de fazer um filme visualmente arrebatador. Faltam quadros evocativos e sequências arrebatadoras para que o longa se destaque entre os demais. Até a violência surge apática e pouco explorada em alguns momentos. Assim, é impossível não imaginar o que diretores como os irmãos Coen ou David Fincher fariam com o material.

Ainda assim, O Diabo de Cada Dia levanta questões interessantes. O filme, assim como o excelente romance no qual se baseia, não está interessado na origem do mal, mas no impacto constante deste na vida e no lugar das pessoas. O mal e a escuridão não tem origem, mas tem caminho, e ele é o coração dos Homens. Para isso, basta um empurrão, uma decisão errada, um caminho mal escolhido. O Homem não precisa ser essencialmente mau; para isso, assim como para morrer, basta estar vivo.

Nota

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