Crítica: Palm Springs é a surpresa mais gostosa do ano

Palm Springs parte de uma premissa conhecida, mas conquista ao subverter todas as expectativas

Histórias de pessoas presas em um mesmo dia, num loop temporal, já foram tão exploradas e repetidas que poderiam se tornar um subgênero à parte. Desde que Bill Murray acordou várias vezes no Dia da Marmota, inúmeros foram os filmes, séries e livros que adotaram a mesma premissa. Palm Springs bebe na mesma fonte, mas se destaca por tentar fazer diferente a partir de um ponto de partida em comum.

Na trama, Nyles está preso no dia do casamento da irmã de sua namorada. Quando o filme começa, entretanto, o sujeito já está naquelas condições há muito tempo. Não sabemos quando e como começou, mas logo descobrimos que ele já se acostumou à situação. Em uma das noites repetidas, Nyles flerta com Sarah, a outra irmã da sua namorada, e a leva para o deserto. Não demora para a coisa sair do controle e, por um acaso, Sarah fica presa no mesmo loop temporada. Agora, os dois se veem juntos na situação mais atípica possível.

Palm Springs investe nos clichês da comédia romântica e do sci-fi pra contar uma história original

A premissa do casal preso, sem poder se livrar um do outro, é a mais antiga dos romances, mas aqui ganha uma roupagem interessante. Apesar de terem conflitos, Nyles e Sarah possuem uma química forte e imediata. Eles se gostam desde o primeiro instante. É o loop que se revela o grande empecilho, e é a experiência da dupla nestas circunstâncias que movem a trama. Assim, vale apontar o carisma avassalador de Andy Samberg e Cristin Milioti. Conhecidos principalmente por seus trabalhos na TV e em algumas comédias, o casal brilha não só quando se juntam, mas isoladamente. O timing cômico de ambos é afiado e a potência dramática não fica para trás.

Suas ótimas atuações são amparadas, claro, pelo roteiro de Andy Siara. O texto jamais perde o bom humor, e insere questionamentos interessantes sobre a condição humana sem pesar a mão. Não há aqui o peso das ficções cerebrais, tampouco temos um produto vazio. Palm Springs brinca ao mesmo tempo que discute o valor dos relacionamentos e os objetivos de cada um enquanto indivíduos e seres codependentes. No processo, afia as lâminas da ficção científica, trazendo explicações e soluções que faltam na maioria dos filmes que abordam a mesma questão.

O loop temporal, vale ressaltar, não era o plot inicial da trama. Siara afirma em entrevistas que o pontapé sempre foi Nyles, seu estilo de vida e seu cotidiano. Viver todos os dias o mesmo dia foi apenas um detalhe que surgiu depois e ganhou forma. Assim, Palm Springs tem muita liberdade para criar e se desenvolver, sem jamais se preocupar com Feitiço do Tempo e demais predecessores. É impossível não lembrar de obras semelhantes, mas é igualmente impossível ignorar a originalidade das situações e seus personagens.

Filme chega em momento apropriado e encontra ecos na nossa realidade

Desta forma, Palm Springs chega num ótimo momento. Enquanto o mundo ainda se vê enrolado em quarentenas, a história dialoga muito com a realidade quem sente que está vivendo todos os dias o mesmo dia. Nesta perspectiva, o longa dá um conselho sem soar didático: é possível e saudável que se tente achar uma saída, uma forma de fugir da prisão da repetição, mas também é aceitável se achar confortável e feliz com as circunstâncias. Não é preciso mudar se a situação está boa, mas não há problema em virar tudo de pernas para o ar.

Palm Springs é mais um filme que se destaca em um cenário onde os filmes e o Cinema ficaram de lado. O longa tem tudo para ser um sucesso na plataforma de streaming Hulu. E a empresa apostou alto, já que o projeto rendeu a compra mais cara do Festival de Sundance do ano passado. Agora, a história tenta achar espaço através do boca a boca e dos elogios rasgados da crítica. Aqui estamos fazendo nosso trabalho: vá e veja. Ou melhor, fique em casa e veja.

Nota

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *