Crítica: Relatos do Mundo já é um dos melhores lançamentos da Netflix em 2021

Relatos do Mundo

Dizem que ter Tom Hanks em um filme é ter “meio caminho andado”, ou seja, metade da qualidade está garantida, pois o ator vai carregar o projeto nas costas. Em uma produção com roteiro redondo e direção de ponta, a probabilidade de acerto é inquestionável. Em Relatos do Mundo, Hanks encabeça um de seus melhores filmes dos últimos anos. Sob o comando de Paul Greengrass (United 93, O Ultimato Bourne, Capitão Phillips), o novo lançamento da Netflix entra para a seleta lista dos melhores filmes do ano – e estamos em janeiro!

Na trama, Hanks é o Capitão Kidd, um homem solitário que percorre o sul dos Estados Unidos lendo as notícias para a população que se reúne curiosa por informações. Assim, de cidade em cidade, Kidd lê os relatos regionais e nacionais, enquanto angaria doações em dinheiro que lhe permite seguir viagem. Em uma de suas andanças, o Capitão, ex-combatente de guerra, encontra uma diligência caída, um homem negro enforcado e uma garota perdida. Por documentos, descobre que a menina estava sendo levada para parentes próximos, depois de perder a família.

Hanks e Greengrass retomam parceria em western irretocável

Kidd é o tipo de personagem que Hanks desenvolveu com inteligência e facilidade através dos anos. Com caráter inabalável, seu Capitão é uma bússola moral, incorruptível e de bom coração. Desta forma, ao se deparar com a menina, que não fala uma palavra de inglês, ele toma para si a missão de levá-la pelos tortuosos caminhos de um país selvagem. Nesta perspectiva, Relatos do Mundo se debruça na relação entre Kidd e a jovem Johanna, numa espécie de western road-movie que jamais falha em manter o público envolvido.

Grande parte do sucesso e da dinâmica do projeto, vale ressaltar, se dá graças à direção irretocável de Greengrass. Acostumado às fitas de ação ininterruptas, o cineasta injeta energia e urgência em uma narrativa que poderia cair no marasmo dos diálogos e das trocas de cenário. Nas mãos de Greengrass, entretanto (que também assina o roteiro), Relatos torna-se um faroeste eletrizante, com sequência de puro impacto e escala épica.

Relatos do Mundo é faroeste épico e moderno 

Note, por exemplo, como o diretor garante um grande escopo a cenas relativamente simples. Sob o comando de um cineasta menos talentoso, o longa poderia ser pequeno e simples. Com Greengrass, entretanto, é uma fita gigante, com fotografia deslumbrante e sequências de tirar o fôlego. O confronto entre rochas de uma encosta, por exemplo, é caprichado no suspense. Especialista em tiroteios, o diretor calibra no som e na mise-en-scène organizada. Assim, Greengrass prova, mais uma vez, ser um mestre da ação, gênero que ajudou a reformular nos anos 2000.

Essa habilidade do cineasta, aliás, é amparada, claro, pela edição certeira de William Goldenberg (Argo, A Hora Mais Escura). Acostumado a projetos de ação e ao estilo semi-documental característico do diretor, o editor potencializa os quadros e a movimentação precisa das sequências. Juntos, Goldenberg e Greengrass estabelecem uma dinâmica pouco vista em westerns, modernizando o gênero e trazendo um novo olhar narrativo e visual para a fórmula amplamente trabalhado pela Sétima Arte.

Filme é tecnicamente impecável e deve fazer bonito no Oscar

Como se não bastasse, outros dois elementos merecem elogios. O primeiro é a fotografia impecável de Dariusz Wolski (que merece o Oscar da categoria, desbancando o favorito Nomadland). Tendo trabalhado em vários projetos de Ridley Scott, Gore Verbinski e Tim Burton, Wolski é um dos grandes responsáveis pela escala épica do longa, bem como a beleza dos quadros, exuberantes nas locações inóspitas dos Estados Unidos.

Outro que merece aplausos é James Newton Howard, responsável pela trilha sonora do projeto. Um dos compositores mais subestimados da indústria, Howard criou temas inesquecíveis para os primeiros filmes de M. Night Shyamalan (seu tema de Sinais é um dos mais assustadores já feitos) e garantiu a música de uma série de filmes muitas vezes lembrados justamente pela Trilha Sonora. Em Relatos do Mundo, Howard faz o que seus colegas de equipe também fizeram: aliar o clássico ao moderno. Desta forma, suas composições bebem fartamente nos temas de faroeste, todos misturados com elementos contemporâneos.

Com tanto a oferecer, Relatos do Mundo já é um dos melhores títulos de 2021, e merece fazer bonito no Oscar. Em um mundo justo, Greengrass seria indicado na categoria de Direção, enquanto seus parceiros ocupariam vagas na categorias técnicas. Hanks é outro que merece retornar aos holofotes da Academia, ao passo que a jovem Helena Zengel deve tomar um espaço entre as atrizes coadjuvantes. Como uma das produções mais completas e bem feitas da temporada, Relatos do Mundo é um lançamento imperdível no catálogo da Netflix.

Nota

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *