Crítica: Soul, da Pixar, é uma história bonita que termina rápido demais

Novo longa da Pixar lançado no Disney+

Em mais uma vitória da internet, a Disney/Pixar lançou Soul mundialmente através da sua plataforma de streaming, o Disney+, no dia de Natal.

O filme é escrito e dirigido por Pete Docter. Se não reconhece o nome, certamente conhece sua obra mais conhecida no estúdio: Up, de 2009. Diferente de outros longas do estúdio, a nova animação do estúdio, mergulhada nas ruas de Nova York e ao som de um bom jazz, veio cercada de expectativas que podem interferir a experiência do telespectador mais entusiasmado.

Trama que envolve?

Na trama, um músico é transportado para fora de seu corpo e precisa voltar para ele ao mesmo tempo que ajuda uma jovem alma. A sinopse e a divulgação que cercou o filme deixam a sensação que o que estamos vendo é uma pequena parcela do que realmente acontece. De fato, é o que acontece. Nos últimos anos, a Pixar vem num caminho que pode ter se concretizado com Toy Story 4.

Normalmente, era criada uma trama baseado num clássico esquema de metas e planos frustrados dos personagens. Ainda se mantém parte disso, mas o que vemos agora e que se repete em Soul é a escolha de algum conceito mais profundo que se desenvolve em uma jornada que se assemelha muito ao visto em filmes de auto-descobrimento. É assim com a jornada de Woody em busca de um propósito para sua vida vazia no quarto filme da franquia Toy Story e é assim com a jornada pela vida de Joe, em Soul.

Atendendo expectativas…

É certo que o filme e seus colaboradores não devem pagar por expectativas criadas na cabeça da audiência. Mas, é inevitável a comparação com os diversos títulos que o estúdio tem nos entregado ao longo de quase trinte anos.

Dois exemplos que predominam os debates são Divertidamente (2015) e Viva – A Vida é uma Festa (2017). Assim como Divertidamente, do mesmo diretor, Soul procura discutir de forma leve e extremamente ilustrativa conceitos abstratos da vida como propósito, felicidade e realização. Da mesma forma, assim como Viva, o filme aborda a temática da morte e do que acontece conosco depois do nosso fim – e também, antes.

Olhando por esse ângulo, Soul pode ser considerado a parte mais fraca dessa trinca. Enquanto os outros filmes usam seus mais longos minutos para ilustrar de forma mais incisiva seus pontos, o longa de 2020 se mostra tímido nesse sentido.

Eu explico: olhando para as emoções de Divertidamente, vemos três atos mais tradicionais de um filme em que se apresenta uma problemática (a tristeza), uma possível solução frustrada (ignorar a tristeza na rotina das emoções) e a conclusão + mensagem do filme (a importância que todos os sentimentos tem em nossas vidas, inclusive a tristeza).

Final não agradou

A ciclicidade da história com um final bonito e bem explicado, na minha experiência, faz falta em Soul. O conceito que traz a mensagem do filme certamente está lá e consegue emocionar seu público, não tenha duvidas. Consigo imaginar claramente um roteiro mais pesado e com um final bem planejado escrito pelo Pete Docter e seus colaboradores.

Uma reunião com os executivos do estúdio e chegaram a conclusão de que a resolução é pesada. Mudanças grandes no roteiro. Nos últimos vinte minutos de filme, parece que as pequenas sementes jogadas ao longo dos dois primeiros atos são substituídas por um final mais rápido e que alegre mais sua audiência – problemas de filmes Disney.

Se houve problema com o departamento de roteiro, o grupo de animação compensa com sucesso. A técnica vista no filme é quase assustadora de tão real. A impressão que fica é que quando não há nenhum personagem em cena é praticamente impossível apontar que os cenários são desenhos animados em 3D. É tudo muito real, com cada detalhe tendo profissionais pensando e cuidando. Em certa cena no metrô da cidade de Nova York, podemos ver o reflexo da luz do celular no rosto de um passageiro. É como se estivéssemos lá.

Elenco compensa

Outra fonte de muita alegria é o elenco. Que elenco! Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton e Alice Braga (brasileiro no filme da Pixar é o hexa que a gente precisa). Essa escalação parece uma aglomeração que daria um ótimo “rolê aleatório”. Quase irreconhecíveis, a dupla de protagonistas estão totalmente imersos nos personagens e fazem graça com eles com a tranquilidade de quem está a vontade.

A tristeza, contudo, ainda existe. Os personagens secundários são ótimos e são donos de pouquíssimos minutos na trama. Diferente de Bing Bong, em Divertidamente, ou Ernesto de la Cruz, em Viva. Os secundários não tem muita importância na narrativa de forma geral nem tem seu momento para os deixar gravados na mente do público. Eles estão lá e temos que tentar aproveitar isso.

Considerações finais

No fim, Soul é um filme Pixar. Isso tem um significado, grande. Ele tem qualidade técnica, emoção, humor e isso rende uma ótima experiência visual para quem procura um filme bom. Alguns mais entusiasmados, como eu, podem ter esperado uma viagem mais profunda e menos precipitada no mundo das almas.

Acredito eu que até o diretor esperava algo a mais também. Talvez quinze ou vinte minutos a mais dariam à Soul o toque especial que outros títulos tiveram. Mas, de forma alguma, o produto final deixa de ser uma grande experiência com uma linda mensagem para seu público. Está lá e é uma reflexão mais do que válido para nossas vidas: nossa alegria está nas pequenas coisas.

 

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Nota

Guilherme Bezerra

Pernambucano estudando Jornalismo na Paraíba. Aficionado por cinema, sou fã de Tarantino e Nolan. Acredito em estudar a arte do cinema e espalhar para o máximo de pessoas as discussões e reflexões que podem encontrar através dessa arte. Luto pela valorização do cinema nacional.

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