Crítica: Um Príncipe em Nova York 2 decepciona em todos os sentidos

Um Príncipe em Nova York 2

Alguns filmes passam anos no aguardo de uma sequência. As produções oitentistas, em especial, permanecem quentes até hoje, justamente porque o público não esquece as possibilidades de continuações. Eddie Murphy, um dos maiores ícones daquela década, entende muito bem disso. Seu sucessos geraram uma porção de sequências e, hoje, com a nostalgia em alta, muitos prometem retornar aos Cinemas – ou streaming, ou TV. O importante é revisitar e lucrar. Nesta esteira está Um Príncipe em Nova York 2.

E a sensação que fica enquanto assistimos à produção da Amazon é justamente a de que tudo ali existe apenas para lucrar e reviver uma fórmula desgastada. Murphy, aliás, vive de repetir fórmulas há anos. Com o recente Dolemite is my Name, o comediante tentou um retorno às boas críticas, mas aparentemente foi um sopro passageiro. Toda a ousadia e anarquia de Dolemite (tanto o filme quanto o personagem real) ficam longe de Coming 2 America.

Falta de inspiração e novas piadas prejudicam o resultado

E este é um dos grandes problemas desta sequência e dos rumos que a carreira de Murphy tomou: a covardia e a acomodação. A nova abordagem é uma lástima se considerarmos a acidez do primeiro filme e das piadas e gags construídas pelo ator ao longo dos anos. Agora, a contradição dá lugar à diálogos seguros, pouco inventivos, que jamais pisam fora da zona de conforto. As poucas tiradas inspiradas surgem quase sem querer e algumas são de gosto duvidoso.

É irônico, portanto, que os momentos que mais funcionam são aqueles que mergulham nas gags mais batidas de Murphy: diversos personagens interpretados pelos mesmos atores. Sob pesada maquiagem, o protagonista e seu braço direito, Arsenio Hall, revivem diversos coadjuvantes marcantes do projeto original. Sempre quando estão em cena, os velhos da barbearia, por exemplo, funcionam. É um péssimo sinal, entretanto, que sejam justamente estes personagens que funcionem. É a prova de que tudo que está fora do eixo central é o que realmente presta no filme. Desta forma, sempre que foca nos protagonistas e seus dramas tolos, a produção perde força.

Pouco engraçado, filme ainda é uma bagunça na parte técnica

Neste sentido, o fracasso de Um Príncipe em Nova York 2 é uma decepção gigantesca. Murphy ainda tem carisma e talento evidentes, além de dinheiro e poder para fazer o filme que quiser. O diretor, Craig Brewer, tem ótima filmografia, mas parece ter trabalhado sob forte sedativo. Só isso explica sequências vergonhosas como a luta entre o rei e suas filhas. O trecho, além de ridiculamente orquestrado, é editado de maneira porca, amadora. A vergonha se estende em outras cenas, quando o cineasta se revela incapaz de sequer montar um plano/contra-plano. Um simples conversa entre duas pessoas vira uma bagunça completa. Assim, tudo um embaraço para quem já comandou filmes tão bons como Ritmo de um Sonho, Entre o Céu e o Inferno Dolemite is my Name.

Fecha o pacote uma trama preguiçosa e absurda, que chega ao cúmulo de alterar o primeiro filme para poder existir. Nem tudo, porém, é tragédia e alguns pontos se salvam. Wesley Snipes segue surpreendendo com sua inquestionável veia cômica. Além disso, a subtrama envolvendo a filha mais velha, real herdeira do trono, carrega uma mensagem atual e positiva. É uma pena que o roteiro tenha criado um novo personagem (homem e totalmente apático) quando poderia ter desenvolvido a bela e majoritariamente feminina família do rei.

Se é pra revisitar assim, esperamos que os sucessos de antigamente sigam adormecidos.

Nota

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