Crítica: Uma Noite em Miami é grande aposta da Amazon Prime Video

Uma Noite em Miami

Imaginar o que figuras históricas fizeram ou falaram no âmbito íntimo sempre foi curiosidade do Cinema. O que Hitler fez em seus últimos dias no bunker? Sobre o que Truman Capote conversou em seus encontros com os protagonistas de A Sangue Frio? Uma Noite em Miami se inspira em um encontro de gigantes e tenta explicar grandes acontecimentos através de um encontro breve e totalmente secreto. Por algumas horas, Malcolm X, Sam Cooke, Jim Brown e Cassius Clay se encontram e conversam. Na introspecção e no diálogo, o filme encontra reflexos nas mudanças históricas que se seguiram.

Dirigido por Regina KingUma Noite em Miami é quase uma peça filmada. Com origens teatrais, o longa se ancora nos diálogos e nas atuações primorosas de seu elenco para funcionar. King, entretanto, é uma cineasta de mão cheia, e jamais deixa sua obra transformar-se em um registro enfadonho de quatro pessoas conversando. Seu filme tem arrojo técnico, beleza visual e momentos puramente cinematográficos. Neste sentido, sua estreia na direção de longas metragens é uma das mais notáveis de 2020.

Elenco é a grande força de Uma Noite em Miami

No ano em que ficou mundialmente famoso por estrelar HamiltonLeslie Odom Jr. rouba a cena mais uma vez como Sam Cooke. Um dos favoritos ao Oscar de Ator Coadjuvante, Odom mais uma vez mistura seus talentos dramáticos com seus dons musicais. E o resultado é irretocável. Naquele que talvez seja o papel mais arriscado da fita, o ator brilha sem se render às muletas típicas da performance.

Quem também se destaca é Kingsley Ben-Adir, como Malcolm X. Em um papel mais acessível (apesar do gigantismo do personagem, Malcolm X tem diversos trejeitos e inflexões reconhecíveis e replicáveis), Ben-Adir é o eixo principal da narrativa, e é através dele que os demais personagens gravitam. O principal drama de Cooke é a o omissão política e social em suas músicas. Quem levanta a questão, em um dos pontos mais dramáticos do filme, é Malcolm. A grande narrativa de Clay é sua entrada na Nação do Islã e seu novo nome, Muhammad Ali. O catalisador do processo também é Malcolm X. Nesta perspectiva, ator e personagem são a bússola da história, e tanto Ben-Adir quanto Regina King entendem essa importância.

Filme deve aparecer no próximo Oscar

Apesar da escala diminuta, Uma Noite em Miami capricha em seus aspectos técnicos. A edição, embora não consiga reverter a morosidade de alguns diálogos, se destaca em momentos-chave. A sequência em que Malcolm X declara sua admiração por Sam Cooke, enquanto vemos flashbacks de um show do cantor, arrepia pelo impacto e pelo talento de Odom, Ben-Adir e King enquanto diretora. Já a trilha sonora se destaca com uma canção original cantada por Odom Jr. Speak Now é, desde já, favorita ao Oscar de Canção.

Errando apenas na falta de ritmo, culpa dos diálogos excessivos, Uma noite em Miami deve fazer bonito nas premiações. Assim como Selma, é um filme que ressoa graças a força de suas mensagens e ao poder de suas atuações. Ao lado de A Voz Suprema do Blues, que também tem origens teatrais, Um Noite em Miami deve levar a voz e o rosto negro para a maior premiação do Cinema. No mais, fique de olho em Odom Jr. e Regina King. Esta dupla tem muito o que oferecer ao Cinema nos próximos anos.

Nota

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