Darren Aronofsky sob(re) pressão psicológica.

Darren Aronofsky: O diretor que chega de “mansinho” na sua mente!

Eu, particularmente, considero o diretor (roteirista, produtor cinematográfico e ambientalista) Darren Aronofsky o típico diretor que chega de “mansinho”, não “mete o pé na porta” e vai entrando e dizendo “cheguei, chegando”. Sabem por quê? Simplesmente porque Aronofsky não faz alarde, mas ganha prêmios e seus filmes tem sempre algo a dizer e que nem todo mundo está pronto para ouvir. E tenho certeza que em uma “rodinha” de amigos alguém cita um ou mais de seus filmes. Falam que gostaram porque é diferente de tudo que já viram. É assim que eu vejo e sinto Aronofsky na esfera cinematográfica. Um artista que caminha em silêncio, mas pisa fundo e estremece o chão.

O Diretor

Darren nasceu em Nova York, frequentou a Universidade de Harvard, onde estudou cinema e antropologia social e o American Film Institute, onde estudou direção. Fez um filme para sua tese final que se chama Supermarket Sweep e se tornou um dos finalistas no “Prêmios da Academia de Estudantes”.

Seus Filmes

Embora como diretor ele só tenha 7 filmes em seu currículo, podemos dizer que ele é um nome forte e que seus filmes serão sempre lembrados e estudados ainda por muitos anos. Mesmo porque, seus filmes têm uma base psicológica e intimista, que nos desafia a pensar sobre nossas próprias vidas e estrutura social. Seus filmes são um reflexo da sociedade moderna que trata dessa corrida desenfreada por uma vida perfeita, status, sucesso e notoriedade.

Pi (1998)

Este é considerado um suspense psicológico surrealista. O filme segue Max (Sean Gullette) que é um gênio da matemática e computação, mas que sofre de uma condição na qual ele não consegue ficar exposto à luz do sol, pois tem dores de cabeça terríveis. Ele é obcecado em descobrir o valor exato do “pi” e uma ordem e lógica na natureza que se apresenta caótica e anormal em sua concepção.

Ele consegue construir um supercomputador. Ao decifrar o número “pi”, consegue compreender toda a existência da vida na Terra e, também prever acontecimentos que se repetem, tais como o que pode vir a acontecer na bolsa de valores. Nem é preciso dizer que ele passa a ser cobiçado por representantes de Wall Street e também por um judeu ortodoxo que faz parte de um grupo que procura o código numérico do “Torá” (livro que contém segredos das antigas escrituras religiosas judaicas) que seria o próprio nome sagrado de Deus.

Aronofsky faz uma direção claustrofóbica e paranoica, com close-ups e com um aparelho que amarra uma câmera ao ator (chamado SnorriCam), dando ao espectador a impressão de estar ali, com o ator, sentindo o que ele sente. Pode-se dizer que, mesmo em 1998, a fobia social estava sendo retratada como a conhecemos hoje, já que o protagonista não é sociável e prefere o isolamento. Bem como, não sabe lidar com as pessoas e se sente desconfortável com esse contato. Aronofsky não entrega um final “redondinho” e fácil de digerir. O final fica com mais perguntas e o espectador tem a oportunidade de refletir e interpretar do seu jeito.

Réquiem para um Sonho (2000)

Neste filme, vemos novamente o diretor usar a técnica do SnorriCam. É um filme de drama psicológico que conta a história de quatro pessoas: Sara Goldfarb (a excelente Ellen Burstyn); seu filho Harry (Jared Leto); Marion Silver (Jennifer Connelly), namorada de Harry; e Tyrone Love (Marlon Wayans, para quem acha que ele só faz comédia, eis aqui uma bela surpresa de atuação!), amigo de Harry. Aqui a busca por sucesso e realização é mostrada de forma extrema, caótica, subversiva e até imoral dos personagens. Para eles “os fins justificam os meios”.

Essa busca por uma vida melhor dos quatro torna-se obsessiva e o elo com o vício em substâncias químicas é inevitável, pois é nele que os personagens se apóiam e percebem como o único caminho possível para chegar aos seus objetivos. A escolha do diretor por narrar as histórias passando pelas estações do ano; das quais três delas são mostradas: verão, outono e inverno, nos faz perceber o ponto de partida otimista (verão) até a última estação (inverno), quando o declínio acontece. Com o passar das estações, essa esperança acaba, se esvai e finaliza o ciclo de uma trajetória quando todos os quatro se encontram sozinhos e derrotados, em posição fetal.

Fonte da Vida (2006)

O mesmo se dá em seu Fonte da Vida. Como entender esse filme? Três cortes de três épocas diferentes da vida de um casal que pode ser ou não imortal. Em todas as três diferentes épocas, Tommy∕Tom Creo (Hugh Jackman) e Isabel∕Izzi Creo (Rachel Weisz) vivem uma história de amor. É uma fábula através dos tempos. Num olhar mais raso, é isso que podemos perceber, mas mais profundamente, poderia ser uma única vida e os delírios de um homem que quer salvar sua esposa, o amor de sua vida. Como sempre, fica à cargo de nós, espectadores, darmos vida e subjetividade as histórias de Darren. É um super convite que o diretor nos faz em mergulhar em nossos subconscientes e nos questionar se faríamos ou não as mesmas coisas que suas criações.

O Lutador (2008)

Mickey Rourke é Randy “O Carneiro” Robinson, um decadente e doente ex-lutador de box que tenta reviver sua glória sem sucesso, já que sua saúde fica cada vez mais debilitada. Mais uma vez, Aronofsky nos traz questões muito dúbias sobre o ser humano. Como ter sucesso e lidar com sua humanidade sem ferrar com tudo e todos à sua volta? Randy abandona sua filha, Stephanie (Evan Rachel Wood) e se apaixona por uma stripper, Cassidy (Marisa Tomei), que também está sentindo o peso da idade e a decadência batendo à sua porta. O convite nesse filme é se perguntar porquê nos apegamos tanto ao passado, porquê necessitamos tanto manter nossa juventude e não encarar o inevitável?

Cisne Negro (2010)

Um dos filmes mais perturbadores e que considero uma ode ao terror psicológico, definitivamente, é Cisne Negro (2010). Darren Aronofsky aqui está em plenos pulmões e imersão ao caos! O enredo gira em torno de uma produção do balé dramático “O Lago dos Cisnes”, de Piotr Ilitch Tchaikovsky, por uma companhia de prestígio da cidade de Nova Iorque. Nina (Natalie Portman) é extremamente perfeccionista e obsessiva, porém delicada e frágil. Ela ganha o papel de “Cisne Branco”; a personificação da fragilidade, mas quer também interpretar o antagonista “Cisne Negro”; a personificação da maldade. Esse último fica para a novata Lily (Mila Kunis) interpretar, já que possui características que caem bem ao papel. Não conformada, Nina passa a mergulhar fundo no que parece ser um sonho (ou pesadelo) acordada, no qual realidade e ilusão se misturam.

A crescente perturbação psicológica que acontece com Nina é paranóica, sufocante, extrema, doentia e sem freios. Novamente vemos o diretor mostrar a obsessão em ter sucesso, obter notoriedade, ter reconhecimento e ser venerado(a) a qualquer custo. Mesmo que nossa saúde mental seja comprometida, a inclinação da sociedade é empurrar-nos ao limite, até que não sobre mais nada a ser extraído e explorado. Nina consegue seu objetivo e atinge o clímax de sua performance atuando nos dois papéis como queria, mas à custa de quê? O final trágico e deprimente pode ser o único que nos espera em todas as nossas investidas para obter sucesso.

Noé (2014)

Esta é uma releitura sobre a história Bíblica da Arca de Noé e de quando Deus destruiu o mundo em um dilúvio. Deus pediu que Noé construisse uma arca e salvasse um casal de cada espécie animal para que a humanidade recomeçasse, já que tudo, aos olhos de Deus, estava perdido em pecado e maldade. A visão de Aronofsky foi bastante criticada pelos religiosos que acharam que ele não foi fiel à palavra de Deus, a Bíblia. Até porque, o filme é baseado em um graphic novel de 2011: “Noé: Pour la cruauté des hommes” (em inglês “Noah: For the Cruelty of Men”, e em português “Noé: Por Causa da Maldade dos Homens”).

Mãe! (2017)

Um filme de terror psicológico, marca registrada do diretor. A história acompanha uma dedicada dona de casa que vive com o marido em um lugar isolado. Ela se dedica à restaurar a casa enquanto seu marido, um escritor de sucesso, sofre com a falta de criatividade. É quando chegam dois visitantes que começa tudo a desmoronar e a “mãe” vê sua rotina tranquila acabar e seu marido se transformar (se já não era antes) em um homem egocêntrico e narcisista. Mãe! é um filme para poucos e há tantas metáforas, alegorias e menções bíblicas que o espectador pode ficar confuso e se perguntar sobre o que realmente é a história. De novo, fica para quem assiste dar a interpretação que lhe aprouver!

Interprete como quiser

Por ser um cineasta ousado, que traz infinitas interpretações e liberdade ao seu público, é que acho-o um diretor como poucos. Com alguns deslizes aqui e ali; ninguém é perfeito e suas obras constantemente nos lembram disso, Darren Aronofsky está sempre nos convidando a refletir e participar de seu mundo “estranho” e caótico. Aceite esse convite com a mente aberta e, provavelmente, você terá uma experiência única!

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