De Batman Eternamente a Um Dia de Fúria: Joel Schumacher era um bom diretor

Joel Schumacher

Batman Eternamente completa 25 anos e, aqui, discutimos porque Joel Schumacher era, sim, um ótimo diretor

Convencionou-se na indústria e entre o público considerar Joel Schumacher um mau diretor. O fato é que o cineasta não só tinha domínio técnico como também era dono de um notável faro para histórias humanas, divertidas e envolventes. Além disso, é um dos diretores que mais descobriu novos talentos. Antes de vários grandes atores e atrizes fazerem sucesso e vencerem prêmios, eles passaram pela direção de Schumacher.

Tendo partido em 2020, sua morte levantou algumas questões pertinentes. Para começar, muitos começaram a perceber a qualidade do sujeito enquanto diretor. Além disso, percebemos uma prolífica e eclética filmografia. Em sua carreira, Schumacher comandou filmes de horror, dramas intimistas, blockbusters enormes, comédias, musicais e muito mais. Mais do que muita gente, o cineasta experimentou de tudo e lançou obras consideravelmente interessantes e subestimadas.

25 anos depois, Eternamente ainda é discutido e assistido pelo público

Em outubro, Batman Eternamente completa 25 anos. E é justamente pelos longas de Batman que Schumacher fica conhecido e muitas vezes julgado como um artista cafona e sem talento. A grande questão é que Joel merece elogios por sua abordagem para o universo do Homem-Morcego. O que se vê na adaptação dos quadrinhos é um projeto pensado e executado com uma visão muito particular a calculada. Engana-se quem pensa que o Batman de Schumacher é uma bagunça. Eternamente é uma aventura escapista que homenageia as páginas das HQs como nenhum outro filme fizera até então.

As cores, os sons, o design… tudo remete aos quadrinhos coloridos e vibrantes do herói. Trata-se de uma decisão corajosa do diretor, já que a franquia havia adotado um tom sombrio com Tim Burton. A aposta deu certo: Eternamente foi um sucesso e garantiu o retorno do cineasta para o próximo longa do Cavaleiro das Trevas. Batman e Robin é um equívoco indefensável, e o próprio Schumacher reconhecia isso. Foi aí, na metade de sua carreira, que a fama de mau diretor chegou com força.

Joel Schumacher perdeu força depois de um erro que atrapalhou uma promissora carreira

Schumacher, entretanto, cometeu um erro como vários diretores cometem e seguem na ativa. O diretor de Eternamente, entretanto, mexeu no vespeiro errado. Basta espiar sua filmografia, porém, para se surpreender com alguns títulos excelentes e atuações exemplares. Joel soube explorar milhões de dólares em escala épica em O Fantasma da Ópera, mas soube, também, investir no suspense enervante com Por um Fio, que se passa inteiramente em uma cabine telefônica. Além do controle técnico, Schumacher ainda sabia extrair performances memoráveis de suas estrelas: a melhor atuação de Michael Douglas veio em um de seus filmes, o excelente Um Dia de Fúria. Susan Sarandon foi nomeada ao Oscar em outros de seus suspenses dramáticos, O Cliente. 

O diretor, vale apontar, sempre teve a confiança de grandes estúdios, com destaque para a gigante Warner, que lhe concedeu o comando da franquia Batman e ainda produziu alguns de seus dramas. Parte dessa confiança vem da noção de que ele era um diretor correto e talentoso e outra parte da certeza de que ele seguiria regras estipuladas pela companhia. Batman Eternamente é uma mistura da visão do cineasta com as demandas do estúdio, que queria um sucesso financeiro que ainda alavancasse a venda de bonecos e produtos da marca. Isso é algo que o próprio Schumacher ressalta: grande parte do filme foi feita pensando em brinquedos e materiais licenciados.

Os últimos anos

A descrença no cinema de Joel Schumacher aumentou, mesmo com alguns sucessos modestos pelo caminho. O final de sua carreira foi agonizante. Tirando dois episódios de House of Cards, quase nada se salva nas últimas investidas cinematográficas do artista. Morreu em junho deste ano, aos 80 anos, depois de batalhar contra um câncer. Entre seus maiores admiradores está David Fincher, diretor técnico e conhecido por seu perfeccionismo. Se alguém como Fincher é fã de Schumacher, quem somos nós para criticá-lo?

9 destaques na carreira de Joel Schumacher:

Os Garotos Perdidos

Em uma aventura misturada com terror típica dos anos 1980, Schumacher lança vários nomes ao estrelato da época. O longa colocou o cineasta no mapa e é, até hoje, uma das referências do Cinema oitentista. Basta pescar as diversas referências feitas em filmes e séries atuais: Os Garotos Perdidos seguem lembrados até hoje.

Linha Mortal

Outro suspense com elenco jovem de peso. Julia Roberts no início da carreira meteórica em outro título que Schumacher cravou na década de 1980. Recentemente ganhou um remake protagonizado por Ellen Page. A nova versão só prova o quanto Schumacher era talentoso, pois a nova tentativa é um fiasco.

Um Dia de Fúria

Schumacher tinha um olhar muito apurado para o que se fazia no cinema em sua época. No processo, ajudava a construir a identidade cinematográfica do momento. É por isso que Garotos Perdidos parece representar tão bem os anos 1980, enquanto Um dia de Fúria parece a síntese do cinema noventista. Do visual à estrutura narrativa, passando pelos penteados e figurinos, o longa com Michael Douglas é um dos símbolos da década e é até hoje lembrado como marca de uma sociedade cansada e à beira de um ataque de nervos.

Batman Eternamente

O carnaval de Schumacher é uma divertida aventura que, embora muitos torçam o nariz, respeita as origens dos quadrinhos. Trata-se de uma das adaptações mais fieis ao espírito e às cores das HQs e o resultado, ainda que espalhafatoso, é bacana. O elenco é um dos mais invejáveis já reunidos em uma produção de super-heróis. Jim Carrey se diverte, Tommy Lee Jones encara o papel como se deve e Val Kilmer é um bom Batman. Dizem que há uma versão do diretor escondida na Warner. Eu gostaria de vê-la…

Tempo de Matar

Segunda adaptação de Schumacher para um livro de John Grisham, Tempo de Matar é outro clássico dos anos 1990. Aqui, o diretor novamente reúne um elenco admirável para contar uma história revoltante e de forte apelo social. Talvez seja o longa mais maduro do cineasta, e, caso lançado nos dias de hoje, possivelmente entraria na corrida pelo Oscar. Depois do sucesso de O Cliente, a Warner chamou Joel para Tempo de Matar e, segundo notícias e boatos, mais alguns dramas jurídicos viriam na sequência. Era uma pequena mina de ouro, mas no meio do caminho havia um morcego…

8mm: Oito Milímetros

Schumacher conseguiu uma das atuações mais decentes de Nicolas Cage neste violento suspense investigativo. Aqui, o diretor explora suas habilidades técnicas com ótima fotografia e roteiro metido a esperto. Não é um thriller impecável, mas vai muito bem para passar o tempo. Ganhou uma sequência nos anos 2000, direto para DVD, provando mais uma vez que as produções do diretor reverberavam de uma forma ou outra.

Tigerland – A Caminho da Guerra

Um dos filmes mais maduros do diretor, Tigerland ainda traz Colin Farrell em um de seus melhores papeis. Com discurso anti-guerra, num período anterior ao 11 de setembro, Schumacher aborda os horrores do Vietnã antes mesmo dos soldados chegarem ao campo de batalha. O treinamento em Tigerland é severo e, assim como a guerra, só leva à morte e desolação. Filmado em formato digital, muito antes de ser moda ou recorrente, Tigerland vale a conferida.

Por um Fio

Retomando a parceria com Farrell, Schumacher prende sua atenção por 80 minutos. Em Por um Fio, um rapaz metido a esperto atende o telefone de uma cabine telefônica e cai na mira e no papo de um psicopata. Farrell reafirma seu subestimado talento enquanto Kiefer Sutherland aterroriza sem jamais mostrar o rosto. O filme é competente ao prender o espectador em um só ambiente e com apenas um personagem na linha de frente.

O Fantasma da Ópera

Épico musical, O Fantasma da Ópera é o último filme realmente bom do diretor. Adaptando o clássico da Broadway, o cineasta novamente prova seu faro infalível para novos talentos. Aqui, temos a estreia oficial de nomes como Gerard Butler, Emmy Rossum e Patrick Wilson. Mais uma prova do respeito da indústria e de grandes nomes por Joel: o próprio Andrey Lloyd Weber, criador do musical, escolheu Schumacher como diretor da adaptação. Isso ainda na década de oitenta. Quase trinta anos depois o sonho se realiza e o Fantasma ganha as telas em produção suntuosa e de considerável sucesso.

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