Em Cartaz: A Vida Além da Cúpula do Trovão

Além da Cúpula do Trovão

Nós não precisamos de outro herói!

Para início de conversa, não, essa não é uma referência que todos os amigos leitores da nossa Coluna vão entender. Afinal, nem todos já estiveram Além da Cúpula do Trovão. Mas aqui estamos nós para falar de uma das partes do mundo pós (?) apocalíptico criado por George Miller, que ficou conhecido da nova geração pela brilhante e cromada joia da coroa de uma filmografia que é Mad Max: Estrada da Fúria.

Certamente, pelo meu título propositivo e otimista, o bom leitor já deve estar se recostando na cadeira para sorver a maravilha que seria falar de como Estrada da Fúria ressignifica a franquia e a nossa percepção de Cinema. Contudo, e aqui vou me apropriar de um outro título que talvez passe por essa coluna, “esse dia não é hoje!”.

Hoje, nós vamos olhar para 1985, para as caras de Mel Gibson e Tina Turner – é, se você está chocado agora, eu estou há mais de vinte anos, eventualmente você supera – para tirar (ou seria colocar mais?) poeira do terceiro capítulo de madness stravaganza dessa franquia. Isso mesmo! Hoje é dia de Mad Max: Além da Cúpula do Trovão (1985).

“Titia! Dois homens brigando!”

Comecemos pelos fatos. E aqui cabe um disclaimer GIGANTE ao amigo leitor: eu sou extremamente parcial sobre a franquia. Não só pelo meu excesso de superlativos (merecidos) ao descrever Estrada da Fúria, mas porque houve um mundo desprovido de muito do que hoje permeia – corretamente ou não – o espaço da discussão. Houve um mundo antes de figuras como Gibson e Turner terem, por falta de melhor colocação, cruzado a linha do tolerável. Não, isso não é uma “passada de pano”, nem uma janela para abrir a discussão sobre problemas ideológicos da caça às bruxas ao contraditório que domina a internet. É só para dizer que eu, pessoa física, tenho uma tremenda memória afetiva (uma das raízes para a existência dessa coluna) com o filme e com as suas frases icônicas, eternizadas pela dublagem da Herbert Richers.

Passada essa tremenda formalidade – que tempos, não é? – é válido dizer também que existe uma sinopse muito bonitinha filme que vai pelas linhas de (traduzido da um-pouco-mais-organizada Wikipédia em inglês): “Na Austrália pós-apocalíptica, Max Rockatansky (Mel Gibson) está cruzando o deserto em um V8 puxado por camelos quando é atacado por Jedediah e seu filho. Eles roubam os pertences de Max, que continua a pé até uma comunidade de sobreviventes chamada ‘Bartertown’ – que reconstruiu vestígios decrépitos de civilização básica, até mesmo eletricidade, comandada pela implacável Titia (Tina Turner) e por Master (Angelo Rossitto) Blaster (Paul Larson).”

E então…

Mas se você perguntar a qualquer um que tenha visto o filme na infância ou nos longínquos anos 90, a sinopse do filme seria composta por duas frases que encabeçarão algumas seções dessa nossa divagação: “Titia, quem comanda Bartertown?!” dita numa voz esganiçada e estridente que estimulava a imitação e “Dois homens entram, um homem sai!” o coro e única regra para disputas juvenis de nós, crianças “hypadas” com o filme e para a Cúpula do Trovão, o centro da resolução das disputas naquela sociedade.

Sequências deveriam superar seus originais?

Nesse ponto, eu imagino que algo esteja passando pela cabeça do amigo leitor – várias coisas, na verdade. Mas vou me ater a uma delas: por que falar do terceiro filme sem abordar os outros antes?

A isso eu respondo com a simplicidade de algo que o próprio George Miller declarou ao comentar o que seria Estrada da Fúria. Não era nem um rebot nem um sequel, era um revisit. Com o tempo, isso fica claro para todos os filmes. Cada vez que ele toca no seu universo, Miller o está revisitando sob uma diferente perspectiva.

Então, quando escolhemos olhar para qualquer parte dessa obra, estamos contemplando uma parte de um mosaico maior, cujas referências se completam, mas não prejudicam a percepção – nem a admiração.

Claro, há um alerta gatilho gigantes aqui. Afinal, para nós que habitamos esse país “maravilhoso”, ver uma sociedade que erodiu além do que deveria ser o imaginável e se reconstruiu em franca distopia TALVEZ seja um tanto pesado para alguns. Ainda sim, o puro absurdo da curva dramática e de algumas soluções de roteiro dadas por Miller merecem audiência.

“Sem energia, não há cidade!”

Toda a criação do que é MasterBlaster não é nem de longe original. Uma premissa de que cérebro e força física não estão num mesmo indivíduo é tão antiga quanto a antiguidade. Entretanto – e aqui fica a sugestão aos afeitos ao estudo da Ecocrítica, um campo em expansão que analisa a ficção sob o olhar das questões ambientais – Master faz um belo argumento.

Bartertown, aquela tentativa de recriação de sociedade “em cima” só funciona e só existe pelo trabalho “sujo” da cidade “de baixo”, algo que já vimos na Literatura de H.G Wells – os Morlock e os Eloi, em “The Time Machine” (1895), e em filmes homônimos de 1960 e 2002.

Noutra sugestão à análise, os sociólogos e cientistas políticos podem se debruçar mais sobre o microcosmos de uma sociedade em que MasterBlaster tem o controle único sobre um recurso essencial como a eletricidade e como os “embargos” dele são uma sátira – cruel – que vemos em algumas das potências do nosso nada atrativo mundo “real”.

“Dois homens entram, um homem sai!”

De forma mais prática, é preciso dizer que Mad Max: Além da Cúpula do Trovão serve quase como um cautionary tale. O filme é uma advertência caricata e com censura PG-13 (quase livre) do quanto as coisas podem degringolar pelas escolhas.

Ele cria uma expansão do universo de Miller, e isso é o mais fantástico. Afinal, nós vemos a evolução entre os filmes na clareza daquela sociedade. Além disso, é com a possibilidade de “terra verde” que o diretor brinca aqui que a nossa maravilhosa Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) vai enfrentar, trinta anos depois.

Talvez essa seja a única crítica ser traçada aqui, nas linhas finais. Miller criou um universo que era simples e até desconexo no primeiro filme, deu um tom grandioso e fatalista a ele no segundo e, quando chegou ao terceiro, ele abre as portas para aquilo que marca o filme e a franquia: insanidade extravagante.

Entretanto, Miller fez mais do que só abrir as fronteiras da imaginação aqui. Ele criou uma mitologia, algo que ele também faz no “culto” à Imortan Joe posteriormente. Ele deu ao mundo cor, sabor, textura e profundidade – e até um macaquinho carismático, um artifício que sobreviveria a cinco Piratas do Caribe. Só que não tinha espaço para fazer tudo isso contar em apenas 107 minutos.

“Quem comanda Bartertown?!”

Um filme mais longo resolveria isso? Claro que não. Dizer que essa ou aquela seria a escolha correta soaria não só leviano, além de muito “obra pronta” para o meu gosto.

Eventualmente, é sim válido dizer que ele conseguiu, no filme seguinte, fazer algo que aqui ficou incompleto. Afinal, passamos boa parte do primeiro e do segundo arco construindo mitologia para Bartertown e para os habitantes do deserto, sendo que isso é abandonado para a perseguição frenética oriunda da destruição da refinaria – e de Bartertown.

Não me entendam mal! Eu amo a perseguição frenética – especialmente pelos planos muito parecidos com Estrada da Fúria. Mas essa é uma daquelas raras situações em que o filme “de ação” é tão mais que nos falta adjetivos. É tão mais, que ao fim da narrativa, mesmo com todas as ponderações que possam ser feitas, a vontade de revisitar persiste.

Além da Cúpula do Trovão…

Por fim, já que todas as divagações precisam chegar a algum lugar, não poderia faltar mais uma referência. Lembro de ter lido uma excelente review sobre Mad Max: Além da Cúpula do Trovão. Acho que num site que reúne críticas do Roger Ebert, que dizia algo mais ou menos assim:

“Há muito mais em ‘Mad Max Beyond Thunderdome’. A descida ao mundo dos porcos, por exemplo, (…) e, claro, a inevitável cena final de perseguição envolvendo carro, trem, caminhão, bicicleta e acrobacias incríveis. Este é um filme que se esforça ao máximo, um filme de grandes maravilhas visionárias.”

Esse é sentimento. Mais do que só uma extravagância, o filme é uma visão, que trinta anos depois trouxe ao mundo algo ainda mais poderoso. Embalado num refrão fortíssimo (“we don’t need another hero”) e numa ode a história, lenda e mito de um universo com mais discussões do que é possível expor num único texto. Sem sombra de dúvidas, um filme que todo mundo deveria conferir.

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