Em Cartaz: Hércules e as Animações Disney

…Ou como criatividade é melhor que Live Action

Eu vou abrir essa divagação com um agradecimento ao Warner Channel, que numa tarde de meio de semana, quando a programação dizia outra coisa me entregou esse verdadeiro presente, que é ver o filme Hércules (1997) – já que a série animada não é nem de longe tão boa – e resultou no texto da vez da nossa Coluna.

Dirigido por Ron Clements e John Musker – a dupla responsável por títulos como A Pequena Sereia (1989), Alladin (1992) e o meu favorito, Moana (2016) – Hércules (1997) é o trigésimo quinto longa de animação dos Estúdios Disney, inspirado livremente no mito grego de Hércules (ou Herácles), o semideus filho de Zeus. A animação foi a sexta maior bilheteria do ano e foi indicado ao Oscar e o Globo de Ouro com a canção “Vencer distâncias”.

Tem as vozes de Tate Donovan (como Hércules), Danny DeVito (como o sátiro Filoctetes), James Woods (como o deus do submundo Hades), Susan Egan (como a “donzela” Mégara), Bobcat Goldthwait e Matt Frewer (como Agonia e Pânico, ajudantes de Hades), Rip Torn (como Zeus) e Charlton Heston (como Narrador). Passada essa breve digressão técnica, vamos ao que importa.

Eu viajarei, vou vencer distâncias

Primeiro, vamos ao básico. Um Olimpo nas nuvens com um brilho diurno e com uma ilustração no estilo do britânico Gerald Scarfe, é uma combinação única de muitos fatores. Uma junção de mitologia, um traço específico, um coral carismático e um vilão não só caricato, mas que ficou espetacular na sua versão dublada – aliás, como tudo dessa época que foi trazido para o Brasil.

Uma donzela com uma dose de autocrítica, muito diferente das apresentadas em Pocahontas (1995), Rei Leão (1994) e muito mais próxima da apresentada em O Corcunda de Notre Dame (1996). Claro, há o fato de ela ter vendido a alma ao Hades e sido enganada e traída, o que a tornou um personagem ainda mais by the book, mas uma frase dela merece ser destacada.

Quando o nosso jovem herói em construção encontra com Meg, ela está numa situação complicada com o Guardião do Rio (um centauro, numa outra referência aos Doze Trabalhos). Nosso jovem Hércules, com seu treinamento de “heroísmo”, pronto para “salvar a donzela indefesa” recebe como resposta: “Eu sou uma donzela, e estou indefesa, mas eu me viro”. Claro, seria leviano dizer, considerado o rumo final da história, que é um empoderamento real e tal. Mas sem querer “passar pano”, é uma animação para criança dos anos 90. Uma fala é melhor do que coisa alguma.

Não fraquejarei, nada é pior

Entretanto, o que realmente faz funcionar é que esse filme conta com os três ingredientes da receita Disney que valem para todas as animações. Começamos pela apropriação da narrativa – e não digo isso, embora seja uma visão possível, com a ideia de crítica ao aculturamento colonial – que transforma a narrativa mitológica em algo que não vá levar problematização à criança.

Hércules deixa de ser um dos muitos semideuses devido às constantes traições de Zeus com mortais e mais uma vítima da fúria de Hera pela infidelidade do marido e passa a ser um filho dos dois deuses que perde a sua divindade num plano de Hades, que também não possuía esse caráter vingativo na mitologia – já que para a mitologia grega como ela é conhecida no ocidente, o Hades (Reino dos Mortos) não era o inferno – na mitologia grega, tanto inferno quanto paraíso são parte de um mesmo plano.

O segundo ingrediente é sem dúvida o poder de autorreferência – que conta com vários vídeos internet a fora explicando essa teoria de que seria tudo um universo só. Mas além da roupa de leão na verdade ser a pele do Scar (preste atenção a cena, uma vez que você vê, é impossível “desver”), existe a autorreferência no formato narrativo. Os arcos da história e seu passo são quase que iguais em todos os filmes, bem como os elementos que movem o roteiro.

Nesse tal lugar, onde vou parar

Você tem a donzela como chamado à aventura/realidade depois de um período de autodescoberta do protagonista que é tirado de seu contexto inicial para se confrontar com sua natureza. Some isso à ajudantes carismáticos que se encarregam de ser alívio cômico – embora nesse caso Pânico e Agonia, os ajudantes de Hades, sejam os verdadeiros alívios cômicos – e ao terceiro ingrediente e você tem um sucesso de nostalgia garantida.

Claro, não poderia faltar talvez o maior propulsor das animações Disney, aliás, um que continua. Enquanto na década de 2010 nós aprendemos a cantar – na verdade elas grudam na nossa cabeça como um chiclete coberto em magia Disney –, mesmo sem saber a letra toda, trechos como “Livre estou, livre estou...” (esse eu confesso preferir o original) e os maravilhosos “O Horizonte me pede pra ir, tão longe…” e “Eu sou Moana!” (sim, eu sou um “véio” que adora Frozen e Moana, ri, chora e se emociona como criancinha e canta junto), nos anos 90 esse efeito era exatamente o mesmo.

O principal segredo da magia Disney – e o culpado da nostalgia que todos nós sentimos – é exatamente esse: as músicas. Talvez não funcione para todo mundo, mas é difícil conhecer alguém que vê uma dessas animações e esquece a música nos primeiros dias. E pelos anos que se seguirem, você pode esquecer completamente a trama do filme, mas é virtualmente IMPOSSÍVEL esquecer dessas maravilhas. No caso de Hércules eles chegaram ao ponto de termos uma estética de coral nas ânforas.

“It’s a living”

É aqui que eu faço a minha crítica ao estúdio. Acho que os outros parágrafos dessa minha ode a um filme de 23 ANOS – feel old yet? I do – servem como testemunho da minha apreciação à verdadeira magia Disney. Claro, eu entendo que toda uma geração cresceu depois desses tesouros, num mundo já com filmes de heróis razoavelmente bons sendo feitos, com um imaginário que incorporou os “eventos de fim do mundo” e meio que virou uma pasta única de cinema catástrofe e blockbuster.

E antes que o crítico chato levante, sim, existem outros títulos e verdadeiras obras de arte sendo feitas, trabalhos geniais como Estrada para Fúria (2015), As Panteras (2019) ou Guardiões da Galáxia (2014) para o público geral e até títulos mais cult como Parasita (2019) do Bong Joon-ho, O Irlandês (2019) do Martin Scorsese ou Mãe! (2017) do Darren Aronofsky, que são feitos para um público mais específico, mas o cinema se planificou ao redor de certos vícios e narrativas. Pode não ser um defeito para todo mundo, mas é inegavelmente uma limitação.

Então, eu entendo que, para citar o sempre presente e agora disposto a matar todos os personagens que a gente achava legal, Harrison Ford, “it’s a living”. Ou seja, você faz para pagar as contas. Eu entendo a Disney querer fazer tubos de dinheiro com live actions que são revisit ou continuação – porque sejamos francos, não dá para contar como remake. Aliás, no franco interesse da verdade, seria hipócrita dizer que Eu, pessoa física Richard, não faria o mesmo, por razões de: tubos de dinheiro. Entretenimento é ganância e lucro também, capitalismo é isso, não sejamos ingênuos ou hipócritas de negar.

De zero a herói, Hércules

MAS, é hipócrita fazer para entregar algo medíocre. Você pode revisitar e rever questões polêmicas, acertar o discurso e corrigir o racismo, o preconceito, os absurdos que existiam. É sim preciso reparar as dívidas históricas. Mas fazer isso via apagamento, via reescrita, é como procurar resolver um erro se eximindo dele e apagando que ele existiu. Desvirtua a boa intenção em oportunismo canalha.

Por que não fazer algo novo? Ou não testar novas narrativas? Não seguir criando “princesas” que são heroínas de fato e direito? Para não deixar de incluir outro favoritismo aqui, Moana (2016) é um perfeito exemplo disso. Ela e a avó e a DIVINDADE são o centro da narrativa. É ela que termina por restaurar o Coração de Te Fiti – problema que, aliás, foi criado pelo Maui – que é sim parte, mas a história não depende dele para chegar à resolução.

Se apegar a refazer com atores e CGI aquilo que para uma geração inteira tem um gosto de infância é cretino e medíocre. É até indigno de uma produtora que criou tantas memórias maravilhosas. A linguagem e o ritmo dessas animações são sim anos 90 e alguém pode argumentar que são difíceis de vender para um novo público. Eu digo que nunca se tentou.

Nesse ponto, o amigo leitor deve estar se perguntando – especialmente o mais jovem, que não faz ideia do que eu estou falando e acha que o Rei Leão é aquele absurdo do ano passado ou Mulan é só isso que tivemos esse ano – se tudo isso não é só a ode de uma criança dos anos 90 para que deixem a infância dela em paz… e é.

Vai ser bem melhor

Mudança é necessário. Mas mudança através da criatividade. Existem novas e vibrantes histórias prontas para serem contadas. Prontas para dar as lições para um mundo muito diferente do que aquele onde eu alugava fitas numa locadora na sexta para devolver sem multa na segunda e ver em loop os mesmos “desenhos”.

É preciso contar novas histórias sempre. Isso é parte da construção da identificação. Precisamos de histórias com representatividade, diversidade de raça, credo, cor e orientação sexual SIM. Precisamos corrigir o rumo e puxar um freio de arrumação no discurso SEMPRE. Mas apagar as lições e memórias do passado é tentar construir uma casa melhor retirando os tijolos do ponto mais baixo para subir as paredes. A conta não fecha. Aprender ignorando e excluindo o que já existe – ou refazendo de forma tosca – não é aprendizado. É um fingimento para se enquadrar em padrões (e claro, lucrar tubos).

Vale assistir?

Se o leitor me perguntar: devo assistir Hércules? Eu lhe digo, sem sombra de dúvidas: sim, com uma colher gigante de ressalvas e sal. Veja como um exercício de autocrítica. Tome como um exercício de conhecimento de onde nós estávamos e o quanto já andamos em termos de produto cultural. Entenda porquê é extremamente divertido e engraçadinho e até bobo. Veja para dizer que é um absurdo e extremamente errado. Observe pelas memórias de uma infância que era muito diferente da sua.

Veja. Existe magia, nostalgia e muitas emoções ali. Veja para entender o meu desgosto dessas versões live action. Ou simplesmente veja para ter a sensação de ser criança num mundo muito diferente. Você não vai se arrepender.

P.S.: E olha que essa nem é a minha animação favorita das antigas. Mas se eu começar a falar do Corcunda de Notre Dame nós não sairíamos daqui nunca!

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