Em Cartaz: O Estranho Mundo de Jack

Fonte: IMDb/Reprodução

A poesia no Natal de Tim Burton

Primeiro, é preciso dizer que O Estranho Mundo de Jack (1993) é a escolha óbvia – mas não a única – quando se pede uma animação de Natal. Para as crianças dos anos 90, já acostumadas a melancolia visual de outras traquinagens de Tim Burton, viu nas desventuras atrapalhadas de Jack Skellington um recorte único dessa época do ano.

Claro, o amigo leitor mais atento vai, antes de mais nada, puxar a minha orelha por esse não ser um texto sobre Edward Mãos de Tesoura (1990) – já que muito da atmosfera, como na maioria dos filmes do Burton, é similar. Esse mesmo leitor pode se queixar que eu optei por um dos mais agridoces dos filmes de Burton para se ver nessa época. Embora queixas válidas, vou pedir ao amigo leitor que, assim como no filme, embarque nessa jornada de pura magia Disney (aliás, o filme está no Disney+) combinada à tradicional estética melancólica e musical de Burton.

Para não faltar uma sinopse aos nossos leitores mais jovens, O Estranho Mundo de Jack (1993) é uma fantasia musical, dirigido por Henry Selick, produzido e coescrito por Tim Burton. O filme é um stop motion norte-americano, baseado num poema criado pelo próprio Burton, quando ele era um animador da Disney nos anos 80. Ele conta a história de Jack Skellington, da Cidade do Halloween, que abre um portal para a Cidade do Natal e se torna obcecado com celebrar o Natal.

Como na maioria dos filmes de Burton, Danny Elfman escreveu as músicas – e cantou como Jack, além de dar voz e vida a vários outros personagens e elementos. Deram vozes aos personagens nomes como Chris Sarandon, Catherine O’Hara, William Hickey, Ken Page, Ed Ivory, Paul Reubens e Glenn Shadix.

Acho que esta coisa do Natal não é tão estranha como parece

O meu favoritismo pessoal por esse filme começa justamente naquilo que ele compartilha com outras obras do Tim Burton: um estilo gótico que nos envolve num sentimento de fantasia. Afinal, aqui toda a iconografia de Natal é mesclada, e por vezes substituída, por elementos fúnebres do mundo de Halloween. Tendo visto o filme quando criança, eu me recordo do sentimento de medo, que foi se diluindo em encanto ao ver aquela fita (sim, um belo VHS, afinal, é o nome da Coluna).

Depois disso, é preciso exaltar o fato de ser uma animação feita com um estilo de stop-motion que vemos em títulos como A Noiva Cadáver (2005) ou a obra-prima Coraline e o Mundo Secreto (2009). “Estranho” é um dos muitos adjetivos que ouvimos quando analisando a obra de Burton, e nesse caso, ela é proposital. Vemos o Halloween danificando a natureza, distorcendo a realidade de modo que seja estranho, mas não algo a ser rejeitado.

E visualmente o filme é impressionante. Existem sutilezas que só o tempo nos faz perceber e esse é o caso com esse filme. Vemos o “rei” do Halloween descobrir um outro universo e, junto conosco, descobrir o Natal. É um esqueleto aterrorizante – e extremamente bem vestido – que canta descobrindo a magia do Natal, mesmo que inicialmente a motivação dele seja muito mais egoísta (e digna da lista dos levados). A história de Tim Burton é cheia de refinadas alegorias, que vão da refinada escolha de palavras à pura magia do stop-motion. Temos piadas políticas, sátiras a arquétipos prontos, subversão social e tudo isso culmina numa cidade de Halloween coberta de neve.

A vida não tem graça sem um bom susto.

Essa é outra coisa que vale ser destacada. Esses universos inteiramente separados são forçados juntos pelas desventuras de Jack. Os personagens, que são deleites visuais, não são realmente muito complexos. Suas motivações, suas emoções, seus instintos são todos muito simples. Existe um tom de grotesco do susto infantil que nos encanta quando crianças e nos enche de nostalgia quando revemos o filme já adultos.

Muito disso se dá pela iluminação, que foi feita inteiramente para o tamanho normal – mesmo com todos os personagens sendo miniaturas. Há ainda o contraste entre os adultos e as crianças e como percebemos o fantástico (e o bizarro) a nossa volta. Na cena dos presentes, as crianças agem de forma muito corriqueira com isso, enquanto os adultos reagem de forma muito mais… belicosa.

Fonte: IMDb/Reprodução
Fonte: IMDb/Reprodução

Nos vemos confrontados ainda com uma tremenda incompletude. É um detalhe que passa despercebido as crianças, mas que Jack nos confronta muito diretamente. O “rei abóbora” é amado por todos, é a estrela do Halloween e mesmo assim, ele se sente incompleto ao descobrir a Cidade de Natal. Vemos uma crise existencial em plena forma ali, tudo isso integrado ao texto da história pela beleza da trilha sonora. Sequências como “Jack’s Lament”, “Jack’s Obsession” e “Poor Jack” mostram o talento de Danny Elgman em vocalizar essas aflições de um jeito perfeito.

Só porque eu não consigo ver não quer dizer que eu não possa acreditar

Saído da mente inexplicável de Tim Burton e realizado com excelência no peculiar de Henry Selick, O Estranho Mundo de Jack (1993) é uma jornada sobre descoberta e pertencimento, vestido como conto de Natal. Ver as desventuras de Jack tentando (e falhando) em substituir o Papai Noel, como vários momentos musicais e tudo isso num stop-motion de qualidade inquestionável.

Juntando o estranhamento com a distorção da natureza e da realidade, Burton e Selick criaram um enredo que gera desconforto, mas fascina mesmo assim. Aliás, em uma entrevista nos idos de 2015, o próprio Selick chegou a dizer que “Eu penso no stop-motion como inerentemente um pouco arrepiante, com as coisas se movendo sozinhas – porém, associado aos designs um tanto cartunescos, é como se fossem brinquedos vindo à vida, o que por si só já é arrepiante”. É essa sensação que, vinte e tantos anos atrás, o pequeno eu não conseguia explicar – nem deixar de ser cativado por essa belíssima história.

É um filme impecável, feito para cativar crianças e cutucar aquela onda nostálgica e reflexiva de fim de ano para os adultos. O Estranho Mundo de Jack tornou-se um clássico que não envelheceu em nada e, 27 anos depois, ainda é impactante e inesquecível. Todo mundo deveria ver. A busca existencial de Jack acaba por resultar num amor com Sally que nos dá uma lição valiosa. E se o rei do Halloween consegue aprender uma lição sobre amor, alguém pode dizer que não precisa disso?

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