Em Cartaz: Os vinte anos de Gladiador

Ele era um soldado de Roma, honre-o

Escrever sobre os primeiros vinte anos de um filme como Gladiador (2000) não é tarefa fácil. Nesse caso, não só pelo meu declarado e evidente favoritismo pelo filme. Vinte anos depois, o filme continua, salvo as óbvias questões de efeitos visuais – e mesmo essas são poucas – com a qualidade avassaladora do seu lançamento.

Inspirado no livro de Daniel P. Mannix de 1958, “Those About to Die” (anteriormente intitulado “The Way of the Gladiator”), Gladiator (2000) é um drama “histórico” de ação britano-americano de 2000, dirigido por Ridley Scott, com roteiro de David Franzoni, John Logan e William Nicholson.

Fazendo um empréstimo do texto da Wikipédia, o filme é estrelado Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Ralf Möller, Oliver Reed, Djimon Hounsou, Derek Jacobi, John Shrapnel e Richard Harris. RusselCrowe interpreta o leal general Maximus Decimus Meridius, chamado de Espanhol no filme, que é traído quando o ambicioso filho do imperador, Cómodo, mata seu pai e toma o trono. Reduzido a um escravo, Máximo ascende através das lutas de gladiadores para vingar a morte de sua família e do antigo imperador.

O coração pulsante de Roma não é o mármore frio do senado, mas a areia quente do Coliseu

Primeiro, é preciso começar dizendo que um dos motivos pelo meu apreço e recomendação ao amigo leitor que veja Gladiador. Mesmo depois de vinte anos, é a forma como ele cria uma “ficção histórica” que não se recria atualmente. Não que o gênero tenha desaparecido, mas existe um sabor a esse filme que só os títulos dessa “escola” tinham – e que hoje não existem mais.

Claro, nem é preciso dizer que não houve um Maximos Decimus Meridius, general das legiões de Félix, leal servo do verdadeiro imperador Marcus Aurelius, pai de um filho assassinado, marido de uma esposa assassinada e que teve a vingança dele (nessa vida ou na outra) – sim, esse e outros diálogos estão impressos no meu cérebro nostálgico até hoje.

Mas houve um César que foi Marco Aurélio, que reinou sabiamente e por um longo tempo e morreu de peste. Houve um Comodus que não era nada piedoso, tentou mudar o nome de Roma para “Comodônia”. Além disso, um de seus amantes o estrangulou. Houve mesmo uma Lucila que planejou um golpe e falhou nisso. Gladiadores existiram, assim como um Coliseu – mas que era chamado Anfiteatro Flavius. E sim, Roma foi uma república por um período.

O que fazemos na vida ecoa pela eternidade

Tudo isso para dizer que o filme recorre, de uma forma que não é mais possível hoje em dia – principalmente devido a Era de “hiperverdade” ou “pós-verdade” em que vivemos – a um recurso clássico da literatura, principalmente nos Bildungsroman.

Ao criar um protagonista que é puramente ficcional e envolvê-lo numa trama de fatos “adaptados”, Ridley Scott – de quem vocês talvez se lembrem por títulos como “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), “Blade Runner” e “Cruzada” – nos coloca no chão das batalhas, no meio das intrigas e nas areias do Coliseu junto com toda a narrativa.

Esse efeito de lidar, a certo modo, com um personagem ausente que na verdade está lá, mas não existe na história. Mistura a lógica da ausência clássica de “Esperando Godot” com a autoidentificação que todos os livros “para adolescentes” fazem.

Sorria para a morte

Uma grande conjunção de outros fatores fazem do filme a excelente obra que ele é. Desde pequenos detalhes como a linha que encabeça esse trecho – uma frase do próprio Marco Aurélio – a belíssima sutileza da uma trilha sonora espetacular.

Os cortes, o ritmo da narrativa, a grandiosidade do Anfiteatro Flavius, excelentes atuações com um texto cheio de frases memoráveis. Aliás, essa é outra das singularidades desse filme. Temos cenas de combate sangrento que são algumas das melhores representações do que era o ato teatral dos gladiadores. Mas também temos diálogos de uma imensa profundidade filosófica.

Vemos um recorte do que se idealiza da vida da lendária Roma retratada com a dose exata de pão e circo. Essa cena inclusive foi sutilmente inserida no filme. Mas também vemos a sabedoria de Marco Aurélio na cena de diálogo com Maximus. A inocência do pequeno Lucius e o genuíno pavor de sua mãe.

Eu não sou piedoso?!

Entretanto, de todas as atuações, além da transformação de Russel Crowe em um ator tão emblemático que seria premiado com o Oscar, é impossível não falar de Joaquin Phoenix. Embora a geração atual conheça o nome do ator pelo seu filme mais recente, “Coringa” (2019), pelo qual ele ganhou o Oscar de melhor atuação, é por Gladiador que Phoenix deveria ser conhecido, reconhecido e reverenciado.

Tirando o meu desgosto pessoal pela falta de roteiro, abordagem leviana e pobre execução – além de todas as outras críticas que eu tenho que deixam os fãs da DC furiosos comigo – da obra de Todd Phillips, é em Gladiador que Phoenix testa a receita de um personagem claramente desequilibrado, autoritário e cruel feito, concebido e apresentado com uma maestria singular – a diferença que faz ter um bom roteiro não é?

Era uma vez um sonho chamado Roma

Nossa breve divagação chega ao fim com a pergunta de sempre: vale a pena assistir? Sem sombra de dúvidas sim.

Gladiador bebe na fonte de filmes como Spartacus (1960) – eu sei que o leitor jovem talvez conheça só a série ou versões novas, mas vale super a pena ver o filme do Kubrick – e Ben-Hur (1959), recriando a atmosfera dessa antiguidade gloriosa(?). Junto a isso, com combates feitos com uma excelência inacreditável para uma época sem os recursos disponíveis para nós hoje.

Combinado a isso, vemos a recriação/retratação de toda uma sutileza de texto que mostra, além da erosão do modelo de governo romano e de sua sociedade – ainda bem que é ficção, não é? – também a da confluência de política e entretenimento de massa.

Você vai notar que eu me restringi a não trazer grandes detalhes da trama. Porque esse é um dos únicos casos em que eu sou contra spoilers. A experiência de ver Gladiador é algo que não se deve conspurcar com detalhes da trama. Então se você me pergunta se deve assistir, certamente você verá o meu polegar inclinado para cima. Além do mais, tem na Netflix e no Amazon Prime Video. Vai lá ver e depois volta aqui.

Gostou desta matéria? Deixe nos comentários e, além disso, continue acompanhando as novidades do mundo dos filmes aqui no Mix de Filmes.

Igualmente, nos acompanhe em nossas redes sociais: Instagram e Twitter.

Nota

2 comments on “Em Cartaz: Os vinte anos de Gladiador

  1. Realmente, é um filme ESPETACULAR! Eu me lembro que quando assistir pela primeira vez, foi quando passou na globo. E como o filme tem uma duraçâo de quase 3h, a globo dividiu, exibindo por 3 dias. kkkk

    1. Exato! Essas pequenas coisas que nos enchem de nostalgia. Sempre que o filme passa certinho num dos canais por assinatura, eu me lembro da maravilha que é o filme inteiro, tantos anos depois hahaha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *