Os trinta anos de Esqueceram de Mim

Imagem: IMDb/Reprodução

Esqueceram de Mim é a comédia de Natal por definição

Se está passando Esqueceram de Mim (1990) é porque já é oficialmente Natal. Certamente o amigo leitor não pode negar a verdade nisso. Afinal, a exibição do filme é quase que uma tradição dessa época. Embora todos os filmes que integraram esse especial – novos e antigos – sejam, de certo modo, sinônimos dessa época, nenhum filme é tão marcante no nosso imaginário do que as desventuras do pequeno Kevin contra os Bandidos Molhados. Certamente é o texto que não poderia faltar no nosso Especial.

Primeiro, é preciso situar o nosso amigo leitor. O ano de 1990 é cheio de títulos – alguns que já estiveram aqui, outros que estarão no ano que vem – que marcam época. Títulos como Duro de Matar 2 e até mesmo Ghost – Do Outro Lado da Vida são contemporâneos de Esqueceram de Mim (1990) e sim, todos eles são lembrados à sua maneira, mas nenhum teve o impacto e a perpetuação no imaginário coletivo do que essa obra-prima de Chris Columbus.

Além de um sucesso estrondoso que se estendeu em uma franquia completamente maluca, a premissa simples do filme e o carisma do Macaulay Culkin – e, para ser justo, embora soe inacreditável hoje em dia, também de Joe Pesci, Daniel Stern e Catherine O’Hara – criaram algo que transcende os 103 minutos. Você vai rir igual, se emocionar igual, torcer contra os bandidos e esperar que tudo termine bem com o pequeno Macaulay Culkin, mesmo tendo visto o filme um milhão de vezes. Algumas cenas e algumas frases são icônicas e impactantes da mesma forma todas as vezes em que você as vê, e esse tipo de charme, temperado com a atmosfera natalina, faz da experiência única.

Eu fiz minha família desaparecer!

Aliás, embora a experiência seja única, não é uma premissa muito estranha para nós, crianças dos anos 90. A gigantesca família de Kevin – irmãos, primos, tios, a bagunça toda – vai viajar no feriado. E como só quem já viajou com uma família grande (ou com uma boa dose de desorganização) sabe, depois de estresse, brigas e muita correria, o pequeno Kevin (Macaulay Culkin) é deixado para trás. Agora, para ser justo, o leitor que nasceu de meados dos anos 2000 em diante certamente acha isso absurdo. Ainda mais hoje em dia em que toda a comunicação é instantânea.

Mas essa não era a realidade de trinta anos atrás. No meio de toda a confusão o menino é deixado para trás, a família entra num voo e só se dá conta que “esqueceram” dele quando chegam em Paris. Claro, o pequeno Kevin fez a sua parte, discutindo, brigando e ficando de castigo no sótão, o que facilitou esse esquecimento – ainda imperdoável, claro. Desse ponto, o carisma puro de Macaulay Culkin toma conta. Em grande parte do tempo de tela, essa estrela mirim estava sozinho em cena, e é simplesmente incrível.

Desde cenas como a do espelho ou o “café da manhã” infantil, ou até a compra da escova de dentes são impagáveis. Mas quando ele se dá conta de que terá que lutar contra uma dupla de ladrões, aí sim ele brilha. Construindo armadilhas malucas, e criando a sua própria “batalha” para defender o seu lar contra os Bandidos Molhados. Aliás, vai aqui uma ressalva: nenhum ser humano normal sobreviveria ao nível de agressão que esses bandidos sofrem. Mas a trama flui tão naturalmente que nem é preciso convite para suspendermos nossa descrença.

Eu espero nunca mais ver vocês!

A genialidade com que a música simplesmente dá quase um efeito poltergeist, como se a magia de Natal se movesse para atender ao pedido do menino Kevin, é bela. Claro, tudo fica ainda melhor quando temos o efeito Benny Hill de todo mundo correndo por estar atrasado são exemplos da tônica de todo o filme. Vai sempre ser essa combinação sutil entre pura magia de Natal com comédia da mais boba, e é exatamente o que faz do filme algo tão incrível. Vemos o pequeno Kevin imaginar monstros no aquecedor e é impossível não achar incrivelmente fofo.

Claro, não podemos também descartar a camada de drama (?) familiar envolvido. Como alguém que não é lá muito fã de parentes, é fácil imaginar que todo mundo já teve um desses momentos em que se deseja “se ver livre” de todos eles. Esse drama, aliás, coloca um certo senso de urgência na história, a partir do momento em que torcemos para que Kate McCallister (Catherine O’Hara) chegue a tempo de salvar o seu caçula dos bandidos.

A gente envelhece para muitas coisas. Mas nunca para ter medo.

Mas o que realmente me conquista nesse filme sempre que o vejo são os diálogos na igreja com o vizinho bizarro. O Natal não é uma época de felicidade para todo mundo. Ainda mais nesse ano de histórias interrompidas e perdas incontáveis. Todos têm um pouquinho de ausência, de incompletude. No fim, nessa cena específica, somos convidados a pensar sobre como certas coisas, argumentos pequenos, discussões, rancores antigos, podem nos privar do único bem irrecuperável: o tempo.

Sim, a cena se vale da dinâmica cômica do vizinho bizarro, com quem Kevin toma um belo susto anteriormente. Entretanto, essa cena é tão mais, fala sobre tantas outras coisas que é impossível não singularizar ela. No meio da comédia maluca dos anos 90, é uma cena feita para falar conosco, as crianças daquela época que ainda vemos o filme todos os anos. Exatamente como fazíamos na infância. Mais uma sacada genial – e provavelmente não planejada por Columbus.

Imagem: IMDb/Reprodução
Imagem: IMDb/Reprodução

Toda a discussão deles sobre o valor da família e sobre como essas relações são complicadas, mas derivadas de uma forma diferente de amor falam volumes. Ainda mais nesses tempos, em que tantas coisas parecem feitas para nos dividir. A ideia de que podemos magoar e ser magoados e mesmo assim não perder o amor, e que devemos tentar enfrentar os nossos medos é uma mensagem feita a mão para nós, os adultos que revisitamos o filme.

Gente, eu tô comendo bobagem e vendo porcaria, não deviam deixar eu fazer isso!

Agora de volta à verdadeira diversão, é impossível não se ver no lugar do Kevin. Qualquer criança realmente desordeira que fosse deixada sozinha, destruiria a casa de um jeito ou de outro. É muito divertido ver ele lendo as Playboys do pai e se queixando que está “todo mundo pelado, que horror!”. Claro, suspendendo a descrença mais uma vez e desligando o “modo adulto”, é engraçado ver o menino descer as escadas de trenó e comer sorvete no café da manhã.

Também é inacreditável a rapidez com que ele vai de “eu não tenho mais medo” para correndo e gritando assustado. Some isso a construção das armadilhas e você tem um primeiro e segundo ato divertidíssimos, com um encerramento de final feliz mais do que esperado. Claro, em alguns momentos o nosso senso de adultos nos faz ter uma ou outra preocupação. Como quando Kevin tenta escalar as prateleiras de madeira, quebra tudo, cai e solta a aranha na casa. Mas esses eram os anos 80 e 90, então rapidamente contornamos isso.

Joe Pesci e Daniel Stern se superam como ladrões. Não pela genialidade – embora o plano inicial de se passar por policial até seja bom – como criminosos. Mas pela insistência cômica em perseguir uma única casa e construir um rancor e vingança quase que pessoais contra uma criança de oito anos. Certo, a criança construiu uma série armadilhas mortais contra eles, mas ainda sim, parece exagero.

Não esquecemos nada, não é?

Com a música do lendário John Williams e cenas que foram replicadas à exaustão em outras produções, Esqueceram de Mim (1990) é o filme de Natal definitivo. Combina a nostalgia da nossa infância com um sem fim de diversão. O filme completa o seu ciclo e alegra crianças, dando uma bela lição nos adultos.  Ele é tão cheio de pequenas referências e easter eggs que só recentemente descobrimos algumas. Um dos fãs colocou no Twitter que, um dos motivos para que Kevin ter sido esquecido é que passagem dele é jogada no lixo, durante a cena da briga da cozinha, bem no começo do filme. A dublagem da Delart também é primorosa.

Quando ouvimos o pequeno Kevin dizer “esse ano não quero presentes, quero a minha família de volta” somos levados a refletir sobre o verdadeiro significado dessa época tão especial. É um pouquinho de calor para os nossos corações que, nesse ano, precisam desse conforto a mais. Não é o meu filme favorito de Natal, mas é o filme de Natal por excelência. E agora, além de se deliciar com ele na FOX (que sempre exibe o filme no dia de Natal), você pode ver no Disney+. Trinta anos depois, continua tão bom quanto na primeira vez que vi e continua sendo um filme que todo mundo deveria ver no Natal.

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