Por que Hollywood insiste em fazer filmes ruins?

Por que Hollywood insiste em fazer filmes ruins? 

Essa pergunta permeia a menta dos cinéfilos de tempos em tempos, principalmente quando uma nova sequência de alguma franquia é lançada. O questionamento, entretanto, não é averiguado e debatido com a devida atenção. Foi ao esbarrar com um artigo da Forbes que a ideia saltou e tudo fez sentido.

E a incidência dos filmes ruins ou fracassados que seguem ganhando sobrevida é impressionante. No artigo da Forbes, uma das obras mais citadas é Peter Pan, e quando percebemos um detalhe, nossa cabeça explode: nenhum filme de Peter Pan deu certo. Tirando a animação da Disney, nenhuma outra releitura foi sucesso de público ou crítica. Até Spielberg andou pela Terra do Nunca e deu com a cara na porta. Se o Midas da indústria não conseguiu emplacar Peter Pan, por que outros o fariam?

É preciso mudar. Mas mudar certo…

Já tivemos filmes com o Pan adulto, com o Hugh Jackman, adaptado do desenho e de tudo que é jeito. Agora, querem fazer outro, talvez focado no Capitão Gancho. Mas por quê? É claro que o universo de Pan é rico, enche os olhos e aquece o coração, mas ninguém quer saber mais sobre isso. Chega.

O artigo ainda cita Robin Hood, que já ganhou até versão de Ridley Scott com Russel Crowe tentando reviver o gladiador na pele do ladrão. Deu errado. Aqui, nem o filme da Disney fez tanto sucesso. É outra história clássica que já rendeu adaptações de todas as formas possíveis. O mais incrível? Nenhuma dá lucro, nenhuma dá reconhecimento crítico.

A lição que fica: é preciso mudar e refrescar antigas histórias, mas de forma assertiva, inovadora. Não basta mudar a idade do personagem, seu gênero ou figurino. É preciso virar de cabeça para baixo e dar uma nova releitura, ou investir no tradicional, mas com autenticidade. Robin Hood tentou ser um épico sujo, Rei Arthur tentou duas vezes ser um filme de ação enérgico e moderno. Só isso não bastou. 10 Coisas que odeio em você é uma comédia romântica que custou pouco, adaptou Shakespeare de maneira engraçada e inovadora, e é lembrada com carinho até hoje.

Máquinas de dinheiro

Entendemos quando franquias como Batman Planeta dos Macacos são revividas com frequência assustadora. Só neste século, o Cavaleiro das Trevas já teve uma trilogia, um início de franquia e um reboot em produção. Foram três atores diferentes dando vida ao homem-morcego, fora séries, animações e demais produtos. Trata-se de um produto que rende dinheiro só por existir.

Planeta dos Macacos é outra coisa lucrativa, e tem sido há décadas. São diversas sequências, programas de TV e releituras. Todas são sucesso, em maior ou menor grau. Até quando fracassa, a franquia vai bem, como nos prova a adaptação de Tim Burton. Um quarto reboot já foi anunciado para os próximos anos, e olha que a história de Caesar nem esfriou.

A insistência é a inimiga do negócio

A insistência é ruim até quando a coisa vai bem. Velozes e Furiosos faz bilhões sempre que é lançado, e o estúdio segue empurrando goela abaixo na audiência. Apesar do público parecer curtir e ir ao cinema sempre que proposto, talvez esteja na hora de reformular, mudar algumas coisas e não seguir fazendo continuações que, grosso modo, não se diferem entre si.

Transformers começou a cambalear e os responsáveis resolveram dar um tempo. Investiram num projeto diferente e deixaram a franquia respirar. Apesar dos filmes serem ruins, a equipe parece atenta ao mercado e pisaram no freio antes que o barco afundasse.

Não dá pra entender, portanto, como uma franquia como Terminator segue ganhando sequências e releituras mesmo depois de fracassar colossalmente por QUATRO vezes seguidas. Dos novos filmes do Exterminador, o melhor é justamente aquele que mais foge da mitologia original e investe num cenário pós-apocalíptico recheado de ótimas sequências de ação. Fora isso, todos os outros são terríveis tentativas de ressuscitar uma franquia que agoniza e só quer descansar.

Por que isso segue acontecendo? Cameron e outros diretores e produtores têm poder na indústria. Marcas estabelecidas ainda são sinônimo de sucesso na cabeça dos executivos, mesmo que o sucesso tenha ficado na década de 1980. É mais fácil para eles venderem algo já conhecido do que investir em produtos originais. E mesmo quando algo original surge, é replicado exaustivamente. Jordan Peele fez sucesso com dois filmes de terror; agora, o sujeito é responsável por diversos projetos do gênero.

Eles não ligam

O estúdio não liga para o que eu penso. Ou para o que você pensa. Eles darão 300 milhões para um diretor fazer a décima-quinta adaptação de uma história que já cansou antes da Segunda Guerra eclodir. James Cameron recebeu sinal verde para fazer quatro sequências simultâneas de Avatar, mesmo sem saber se o segundo fará sucesso. Caso o número dois falhe, o estúdio vai estar atolado com três possíveis fiascos que certamente ancorarão nas salas de cinema.

Você vai dizer: “mas o primeiro filme fez mais de dois bilhões!”. Tá bem, cara pálida, mas quem disse que precisávamos de quatro fucking filmes depois disso?

O fato é que os grandes produtores não fazem filmes apenas pelo retorno financeiro ou pelo reconhecimentos dos prêmios e críticos. Eles financiam projetos apenas porque podem.

Em entrevista recente, Marlon Wayans revelou que uma das intenções de Harvey Weinstein ao comprar Todo Mundo em Pânico era simplesmente tirar o filme do mercado e ser dono daquilo que faz piada do próprio produto. “Dono” de Pânico, o magnata queria que o deboche ficasse sobre suas asas, e não sob a tutela de outro produtor. Só ele poderia debochar dele mesmo.

Em um período em que as plataformas de streaming estão lutando por espaço e reconhecimento, entre si e com as salas de cinema, essa compra e troca de produtos dita as regras. O novo filme de guerra de Tom Hanks, Greyhound, foi adiado devido à pandemia, e comprado posteriormente pela Apple. Agora, o longa chega direto na plataforma. Não importa o que você desejava, pois nem a vontade de Hanks importou: ele não queria que o épico saísse dessa forma, mas é assim que a indústria quer.

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