Próxima sessão: Mudança de Hábito

Próxima Sessão: Mudança de Hábito

Mudança de Hábito é simplesmente FABULOSO

Antes de mais nada, vale dizer: 1992 é certamente um ano de muitas produções. Muitas que merecem – e eventualmente terão – espaço aqui. Mas nenhum deles se destaca mais pelo poder da nostalgia que o filme gera até hoje. O título da vez da nossa Coluna faz com que este que vos escreve cante as músicas todas as vezes, ria, chore, se assuste e se empolgue nas mesmas partes – em todas as milhares de vezes em que eu já revi esse mimo em forma de filme. Estamos falando, claro, de “Mudança de Hábito”.

“Mudança de Hábito” (“Sister Act” no original) é uma comédia musical de 1992, dirigido por Emile Ardolino (de quem vocês talvez se lembrem por dirigir um outro título que em breve passará por aqui, “Ritmo Quente”), escrito por Paul Rudnick (sob o pseudônimo de Joseph Howard) e estrelado por Whoopi Goldberg no papel de Deloris Van Cartier, uma cantora de boate forçada a se tornar a Irmã Mary Clarence, após presenciar um crime e ser colocada num convento pelo programa de proteção à testemunhas.

O elenco ainda conta com nomes como Maggie Smith (para os potterheads, a eterna Minerva McGonagall, para mim, sempre a Condessa viúva de Grantham, Violet Crawley, em Downton Abbey), Kathy Najimy, Wendy Makkena, Mary Wickes, Bill Nunn (editor do jornal Joseph ‘Robbie’ Robertson da trilogia original do filmes do Homem-Aranha) e Harvey Keitel (de quem vocês talvez lembrem em títulos como “Cães de Aluguel”, “Pulp Fiction” e “A Última Tentação de Cristo”).

Talvez um dos maiores casos de sucesso financeiro da década de 90 – arrecadando cerca de 231 milhões de dólares no mundo – ele gerou uma continuação que acaba por exemplificar a genialidade das equipes de tradução e dublagem brasileiras em alguns momentos dourados. O título original, “Sister Act”, tem em si um trocadilho que não é nem de longe tão genial quanto a versão brasileira (“Mudança de Hábito), que acabou permeando o título da sequência mesmo em inglês, intitulado “Sister Act 2: Back in the Habit”.

Afinal, Mudança… de Hábito?

Agora que passamos pela digressão inicial, vou começar dizendo mais uma vez o quanto “Mudança de Hábito” é um favorito pessoal. Não nego. A crítica da época bateu muito no filme, seja pelo tipo de humor, pelos estereótipos usados, e talvez naquela época até fossem algumas críticas válidas. Entretanto, quando despido de certos preconceitos e visto hoje em dia, é impossível negar que trata-se de um filme divertido, brilhante, cheio de pequenos pontos que são discussões gigantes, apresentados com maestria por Whoopi Goldberg.

Há sim uma enormidade dos clichês oitentistas e noventistas – sim, os neologismos de década vieram para ficar – que vão desde o figurino, passando pela escolha das músicas e a estética de “coral”, chegando ao argumento-roteiro em si. Mesmo assim, o filme acaba por transcender essas limitações. Existia, nos roteiros populares daquela época, uma certa linearidade e um desapego pelos enormes cliffhangers e doses cavalares da suspensão de descrença que o atual cinemma nos acostumou.

Na verdade, nada está escondido aqui. É uma fórmula bem simples, executada de modo ainda mais simples. Já nos minutos iniciais, em falas como “Deloris Wilson, você é a garota mais indisciplinada e desobediente desta escola!” e “Sabe o que meninas como você acabam virando?”, o filme profetiza o destino da nossa jovem estrela.

É claro, o elenco de peso empresta muito ao todo da obra. Todas as vezes em que alguém fala “colégio de freira”, a imagem que me vem é imediatamente Maggie Smith. Ressalvas sobre estereótipos a parte, é algo que eu, como nostálgico incurável, venho apontando mais a cada dia. O nível de habilidade e atuação daquela escola/geração era muito acima do que é padrão hoje em dia. Nos primeiros minutos de filme, somente pela expressão facial de Deloris, o desconforto que ela sente de estar naquele papel, repetindo aquele número todos os dias, limitada pela franca falta de atenção dos poucos expectadores no cassino. Todas essas frustrações acabam por ser externadas depois. Em outros momentos, as Freiras fazem o mesmo.

“Não tem nada além de mulheres brancas vestidas de freira”

Esse é, infelizmente, um ponto que não pode ser deixado de lado. Embora na continuação o filme abrace mais a diversidade cultural, ao abordar o contexto da escola com negros e latinos. Mas aqui, infelizmente, embora o filme procure valorizar a riqueza musical da comunidade negra, Whoopi Goldberg é a única atriz principal negra. A princípio podemos ainda apontar Bill Nunn no papel do Tenente Souther, mas ainda sim o tempo de tela dele é muito pequeno. Além disso, Goldberg e a única negra além das Ronelles (coristas) no início do filme, de um coroinha latino e alguns dos coadjuvantes no bar e na igreja.

Uma crítica menos óbvia, mas também justa, é que fica muito fácil saber que o Vince é um mafioso malvado vendo hoje em dia. Dos capangas fuleiros – que viram alívio cômico rapidamente – ao estilo barato e sobrenome, fica fácil adivinhar que ele é um criminoso. Isso, claro, não estraga em nada.

Tem uma particularidade, talvez uma observação muito minha – conto com o amigo leitor para me esclarecer – que sempre me chama a atenção no filme. Deloris é muito forte por causa das fraquezas e vícios morais. Ela não é nenhuma santa. Conforme a freira previu no prólogo, ela acaba sendo uma corista, amante de mafioso, numa vida questionável. Ela é cheia de hesitações, de dúvidas, de medos. E o que nós vemos ao longo do filme é que todos esses medos estão lá o tempo inteiro. Mas eles são o motor para as forças dela. Ela se torna forte. Ela vai além, não apesar das falhas, mas por causa delas. Assistindo por esse ângulo, o filme fica ainda melhor.

“Precisam colocar atitude, precisam pensar no que estão cantando (…) precisam ouvir umas às outras”

Esses pequenos recados, essas tiradas geniais… o texto do filme acaba se materializando nas viradas que o roteiro toma, todas mensagens poderosas que falam volumes na época em que estamos. É claro, estamos falando de uma realidade diferente, ficcional. Mas a mensagem não deixa de ser bonita.

Por outro lado, a resolução do conflito entre a Irmã Superiora e Mary Clarence é uma das mais hilárias críticas já feitas à polícia noventista. Afinal, num sonoro “não podemos deixar com os federais”, as freiras decidem partir em resgate de Deloris, o que nos dá mais uma boa colher de alívios cômicos, sem deixar de ser realmente emocionante.

O filme então caminha para o fim, com um dos momentos mais emocionantes do coral. “I Will Follow Him”, de Peggy March, ganha um novo significado. No segundo filme, com a famosa cena do “Oh Happy Day”, vemos uma abordagem com mais profundidade à música e musicalidade em si. Mas não podemos deixar de notar outras músicas de que só nos lembramos pela versão nesse filme.  “My Guy” (de Marry Wells), “If My Sister’s In Trouble” (do Lady Soul), “Shout” (do The Shangri-Las) e até “Hail Holy Queen” são alguns exemplos.

 

“Mudança de Hábito” marca (a visão de) uma época e faz história. Ganhou uma sequência, virou um musical que quebrou recordes de bilheteria. É um filme para rir, gargalhar, se emocionar, cantar junto e até chorar. E ninguém deveria passar pela vida sem se dar a chance de conhecer esse verdadeiro tesouro.

P.S.: Sabemos que eu sou um maluco por referências e créditos. Então, registro aqui o meu agradecimento à Wikipédia pela base para o resumo do filme no segundo parágrafo e ao NerdCast Speak English 24 (“Loucademia de Traduções”) pela genial sacada sobre o trocadilho na tradução do título do filme.

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