Steven Spielberg, ou O melhor diretor vivo

Steven Spielberg destaque

Spielberg moldou o Cinema que conhecemos hoje, criou o blockbuster e conquistou a crítica. É um dos artistas mais completos e versáteis já visto

Que risco corro ao afirmar o que o título deste texto revela. Principalmente porque Scorsese, Coppola Eastwood e tantos outros ainda caminham sobre a Terra. O fato é que, gostando ou não, Spielberg é um dos maiores nomes da história do Cinema, tendo virado praticamente um sinônimo do conceito de cineasta. Neste sentido, quando se fala em diretores, uma das primeiras imagens que vêm à mente é Steven de boné, comandando alguma super-produção. O famoso “midas” ditou regras nas últimas décadas e atingiu a estratosfera do sucesso na indústria. Seus filmes somam bilhões em dinheiro e uma porção inenarrável de elogios e prêmios.

Spielberg é o cara que vai agradar tanto o gosto popular quanto o culto, de nicho. Assim, procure por entrevistas de atores e diretores e verá que Spielberg sempre surge entre os favoritos de cada um, seja ele um artista de blockbuster ou um premiadíssimo autor. Logo, percebemos que o sujeito moldou o Cinema americano como o conhecemos hoje. Desta forma, ao lado de Scorsese, De Palma, Coppola, Lucas, formou a nova Hollywood e traçou caminhos que são percorridos até hoje. Dentre suas capacidades mais notáveis, Spielberg talvez seja o único cineasta que passeia entre o blockbuster e o intimista com tamanha versatilidade e qualidade.

O Sério e o Divertido

Spielberg já afirmou que gosta de produzir dois filmes ao mesmo tempo, pois a feitura de um ajuda na do outro. Segundo ele, enquanto começa a pré-produção e filmagens de um segunda longa, sua mente relaxa e é capaz de retornar ao primeiro com mais foco e outras ideias. Olhando a filmografia do diretor, essa abordagem funciona e ocorre com surpreendente frequência.

Vale ressaltar, ainda, que as dobradinhas sempre vêm com um drama intimista e um arrasa-quarteirão. Nesta perspectiva, é como se o diretor quisesse desopilar de um projeto com outro diametralmente oposto. Inegavelmente, a dupla mais notável é A Lista de Schindler Jurassic ParkLançados no mesmo ano, o primeiro ganhou sete Oscar e o segundo se tornou o maior sucesso comercial da história. Ambos receberam carinho e aprovação do público e da crítica.

E ambos não poderiam ser mais distintos: Schindler é uma drama com mais de três horas, preto e branco, pesado e requintado. Park é uma aventura desenfreada lotada de efeitos visuais. Cada um deles é o representante maior dos dois estilos do diretor: o sério e o divertido.

Muitos veneram o lado divertido do cineasta, mas torcem o nariz para sua veia dramática. Ainda assim, seu talento pode ser atestado nas duas vertentes. Minority Report Prenda-me se for capaz saíram no mesmo ano, assim como Munique Guerra dos Mundos, As Aventuras de Tintim Cavalo de Guerra, The Post Jogador Nº 1. Em todos os casos, há o espetáculo e o calmo, a explosão e o diálogo. Todos feitos em dupla e de forma simultânea. E todos funcionam.

Um mestre e seus truques

Spielberg certamente é mestre da técnica, e suas habilidades merecem destaque justamente por não chamarem atenção. O cineasta domina a direção de atores e arrasa na condução de sua câmera. Tudo de forma natural e fluida. Enquanto alguns diretores chamam atenção com planos-sequência elaboradíssimos, Spielberg faz o mesmo sem se exibir ou revelar os segredos. Perceba, portanto, como as cenas de seus filmes são mais longas do que o normal. A grande diferença está no fato de que ele domina tão bem o ritmo, a câmera e a edição, que jamais cansamos do que vemos. Assim, cada movimento e cada corte é pensado e realizado com precisão.

Planejar a ação sem cortes é o método mais efetivo de colocar a audiência dentro de uma experiência em tempo real. Assim, é o público que está tomando decisões sutis sobre quando e o que olhar.

-Steven Spielberg

Além do domínio técnico e das tecnologias de ponta, Spielberg sabe o valor de um close-up. É por isso que uma de suas marcas registradas é justamente o close que se aproxima do rosto do ator e destaca seus olhos. Nada funciona e passa melhor a mensagem do que o olhar de uma pessoa. A atenção com a face e com as emoções, portanto, é a prova da preocupação de Spielberg com o fator humano.

O fator humano

Assim como todos os mestres das mais diversas artes, o cineasta entende que qualquer história, seja ela de ação, comédia ou drama, precisa ter os pés fincados na realidade dos personagens. Jurassic Park é um exemplo da atenção dada ao drama pessoal: por mais que as ameaças dos dinossauros encham o olhos e divirtam, são as reações dos personagens que ditam o ritmo emocional da coisa.

A audiência está preocupada apenas com a história, o conceito. É o barulho que um filme popular começa a fazer antes mesmo de ser popular. Assim, as audiências não serão fisgadas pela tecnologia, elas serão conquistadas pela história.

-Steven Spielberg

E Spielberg domina a arte da manipulação. Seus detratores apontarão este como um de seus maiores defeitos, mas é inquestionável sua habilidade para dizer como o público deve se sentir. Seja através da trilha sonora ou de um leve movimento de câmera ou enquadramento, o diretor puxa as cordas exatas e detalha de forma clara e objetiva que emoções devemos ativar. É óbvio que, aqui e ali, o cineasta pese a mão, principalmente em obras mais recentes. De todo modo, é surpreendente sua capacidade de manipular o público e mantê-lo preso à tela.

A fase da TV e dos primeiros passos

Como a maioria dos diretores, Spielberg começou na TV. Sua participação em séries como Galeria do Terror refletiu-se durante a carreira, seja em projetos como o filme de The Twilight Zone ou Amazing Stories. Seu primeiro longa-metragem “oficial” é um telefilme que se saiu tão bem e surpreendeu de tal forma, que foi lançado nos cinemas da Europa.

Encurralado, de 1971, é uma espiada surpreendente na capacidade técnica do diretor. Aqui, já podemos ter uma ideia da inclinação do cineasta ao espetáculo. Louca Escapada, de 1974, é outro que traz alta velocidade e ação no centro da experiência, embora não goze do mesmo arrojo do anterior.

O criador do “arrasa-quarteirão”

O termo blockbuster, que você lê e escuta com frequência, se dá, em grande parte, ao sucesso arrasador de Tubarão. Unanimidade de público, Tubarão é o primeiro longa de Spielberg que cativa as audiências ao mesmo tempo que põe os críticos de joelhos. A Academia também se rendeu, e por mais que tenha deixado o sujeito fora da categoria de Diretor, nomeou a obra na categoria máxima.

A partir daí, começou o início da paixão por extraterrestres. Contatos Imediatos do Terceiro Grau é outra tentativa bem executada de unir o popular e o cinema de autor. A união de efeitos visuais incríveis com François Truffaut é a prova mais lúdica disso.

Em seguida, experimentou o fracasso com 1941, mas logo retomou a indústria e o mundo de assalto com dois petardos: Os Caçadores da Arca Perdida E.T. Ambos foram sucessos absolutos de público, crítica e prêmios.

Um Homem Sério

Spielberg queria mostrar que tinha capacidade de comandar longas sérios, com menos pirotecnia e mais diálogos e dramas. A Cor Púrpura Império do Sol são duas tentativas consecutivas de se encaixar entre a gente grande.

Em seguida, Spielberg passa por um período turbulento: a saga Indiana Jones chega ao fim, Além da Eternidade passa longe de ser um sucesso e Hook se estabelece como um embaraço. Era o tempo de seca, a tempestade que antecedeu o ponto alto da carreira.

Fortuna e prestígio

Foi a partir da dobradinha Jurassic/Schindler que Spielberg encontrou o ritmo certo para os dramas e os espetáculos. A partir daí, excetuando-se um exemplo e outro, Steven raramente tropeçou. Foram dois Oscar na década de 1990, milhões no bolso e um novo milênio que trouxe ótimas inclusões no drama, na ficção científica até mesmo na TV. Seu projeto na HBO, Band of Brothers é, até hoje, uma das melhores minisséries da história.

Os filmes de Steven Spielberg: do melhor ao “não tão maravilhoso”:

1 – Munique, 2005

Munique é o ápice de Spielberg enquanto contador de histórias e cineasta. Em sua melhor forma, o diretor revela total domínio técnico e narrativo. Assim, é sua obra mais arrebatadora e madura.

2 – O Resgate do Soldado Ryan

Os trinta minutos mais intensos do cinema de Guerra formam a ponta do iceberg. Resgate é muito mais do que a arrebatadora sequência de abertura. Traz Spielberg manipulando sensações sem jamais perder o tom.

3 – A Lista de Schindler

O estilo moderno de Spielberg em uma fotografia em preto e branco e o sonho de qualquer amante de Cinema. Aqui, o diretor alia a selvageria humana ao mais puro amor ao próximo.

4 – Jurassic Park

O tipo de espetáculo que só Steven Spielberg poderia criar. Nesta perspectiva, não envelheceu um só dia.

5 – E.T.

A contra-luz, o talento para dirigir atores mirins, a fantasia e o talento para criar planos e sequências geniais sem chamar atenção.

6 – A.I. – Inteligência Artificial

Spielberg trabalhando com material de Stanley Kubrick. O maior cineasta vivo aliado ao maior cineasta que já passou pela Terra. O resultado é impecável, embora muitos discordem.

7 – Minority Report

Spielberg faz aqui o se tornaria sucesso nas mãos de Christopher Nolan e outros diretores mais recentes: unir o espetáculo da ação com ficção-científica e roteiro esperto.

8 – Prenda-me se for capaz

Mais uma vez trata-se da perfeita combinação de entretenimento genuíno com roteiro bem escrito e personagens bem desenvolvidos.

9 – Tubarão

O flerte mais explícito do diretor com o cinema de horror é um sucesso do início ao fim. Revela, com isso, a maestria do cineasta ao fazer milagre com poucos recursos.

10 – Indiana Jones e o Templo da Perdição

Spielberg encontra o equilíbrio certo entre a aventura escapista e o sobrenatural, algo que havia desalinhado em Caçadores e se perdido totalmente em Caveira de Cristal.

11 – Guerra dos Mundos

Cumpre seu propósito de maneira impecável: divertir com muita ação, efeitos visuais e história simples e clássica.

12 – Os Caçadores da Arca Perdida

Revela o talento do diretor – e de Harrison Ford – para a comédia e para o ritmo certeiro das sequências.

13 – The Post

É o mais próximo que Spielberg chegou de um assunto político e espinhoso depois de Munique. Enfim, é um resultado excelente que une uma trindade irretocável: Hanks, Streep e Steven.

14 – Ponte dos Espiões

Spielberg afina o dramalhão lento e faz um filme devagar que consegue entreter.

15 – O Terminal

Spielberg e Hanks fazendo o que sabem melhor, de forma leve e despretensiosa. É, de certa forma, apenas um comédia-dramática bem amarrada que te puxa sempre que passa na TV.

16 – Encurralado

É o cinema mais cru e roots que Spielberg fez na carreira. É, a princípio, a prova de que o diretor pode fazer o que quiser mesmo sem orçamentos astronômicos.

17 – Jogador Nº 1

Mostra um Spielberg em perfeita sintonia entre seu passado e o presente de todos nós. Desta forma, reconhece em si o próprio legado e como a indústria funciona hoje. Assim como seus filmes, Spielberg mostra aqui que não parece ter envelhecido.

18 – Cavalo de Guerra

Peca pelo exagero das emoções, mas é um longa subestimado. Visualmente belo e envolvente, precisaria apenas de uns pequenos ajustes para ser um novo clássico.

19 – A Cor Púrpura

Spielberg calibra no drama e tenta mostrar que é um adulto sério e consciente. Em resumo, poderia ser mais afinado, principalmente se estivesse meio tom abaixo.

20 – As Aventuras de Tintim

Incursão do diretor na animação, diverte do início ao fim. Aqui temos alguns raros momentos em que o cineasta apenas quer exibir seus dotes técnicos. E consegue sem muito esforço.

21 – Indiana Jones e a Última Cruzada

É a necessária pisada no freio de uma franquia que já vinha cansando.

22 – Contatos Imediatos do Terceiro Grau

O roteiro peca de leve pela repetição, mas no geral agrada, seja pelas ideias ou pelos absurdos. É o irmão mais velho e menos divertido de E.T.

23 – Império do Sol

É um drama correto e um pouco longo demais. Christian Bale já mostra talento aqui, comprovando mais uma vez a habilidade do diretor no comando de atores mirins.

24 – O Mundo Perdido

Falta lapidação na sequência de Jurassic Park. É bacana, mas precisava de mais tempo para aparar arestas e ficar a altura do primeiro.

25 – Amistad

Falta aqui o senso de ritmo que dita a maioria dos filmes do diretor. Os diálogos são pesados, longos e em excesso. É, ao lado de Lincoln, o mais enfadonho da filmografia.

26 – Hook

Não é o desastre que muitos apontam. É apenas um filme divertido que seria ótimo se dirigido por outra pessoa. Nos padrões de Spielberg, ficou abaixo do esperado.

27 – Lincoln

Daniel Day-Lewis está sublime, mas o texto exagera na verborragia. Neste sentido, é como ler um livro didático de uma vez só, sem respiro: não é ruim, mas cansa.

28 – Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

É a insistência em uma franquia cansada. A fragilidade da saga sempre residiu na tênue linha que separa a realidade do sobrenatural, e aqui, tal limite se parte, virando uma imensa bobagem.

29 – Além da Eternidade

Filme pouco visto, menor na filmografia, que não é bom, nem ruim. Ele apenas existe, funcionando como um treino para o diretor que parecia querer se exercitar.

30 – Louca Escapada

Quando Spielberg tenta repetir fórmulas, acaba enfraquecendo. Assim, Escapada tenta repetir o sucesso inesperado de Encurralado, mas fica no caminho.

31 – 1941

Uma comédia equivocada de um diretor que foi alçado ao estrelato muito rápido, e achou que poderia fazer qualquer coisa na hora que desejasse.

32 – O Bom Gigante Amigo

Um embaraço. Spielberg tenta emular E.T. e até mesmo Hook. Erra os dois e fica pelo caminho num longa estranho que não encanta e não empolga.

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